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Cultura » Meios de comunicação e movimentos sociais

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Luiz Carlos Merten

31 Março 2009 | 09h22

Estava saindo, ontem, do jornal, quando chegou a notícia da morte de Ankito. Estava atrasado e não me sobrou tempo para postar nada sobre o assunto, o que farei daqui a pouco. Fui ontem a São Bernardo, participar de um debate promovido por estudantes da Metodista. São estudantes de comunicação, dos cursos de jornalismo e visuais. Por princípio, topo ir conversar com quem quer que seja, mas, chegando lá, tomei um susto. Achei que o tema seria jornalismo cultural, mas era ‘meios de comunicação e movimentos sociais’. Eu era o único representante da, digamos, imprensa ‘burguesa’ na mesa. Havia uma garota de uma rádio comunitária, outra de um site internacional de notícias, um terceiro do movimento sem-teto, que faz ocupações urbanas, todos reclamando do tratamento que a grande imprensa dá às questões sociais. Foi bem interessante e acho que não me saí mal, até porque creioi que não é muito difícil defender o trabalho que fazemos no ‘Caderno 2’. A concorrência que se dane, mas ouço diariamente de leitores, entrevistados etc, que o ‘Caderno 2’ é – de longe – o melhor segundo caderno do País. Não devem dizer isso para me bajular. O cumprimento é para a equipe e a do ‘Caderno 2’ é de feras – Antônio Gonçalves Filho, João Luiz Sampaio, Ubiratan Brasil, Luiz Zanin Oricchio, Jotabê Medeiros, Camila Molina etc etc. Vejam que, num acesso extremo de modéstia, nem estou me incluindo,. Ha-ha. Se falo sobre o assunto é por causa do que vem agora. Havia uma garotada imensa interessada na discussão. Perguntei, a título de provocação, quantos haviam assistido a filmes como ‘Serras da Desordem’, de Andrea Tonacci; ‘Terra Vermelha’, de Marco Bechis; e ‘À Margem do Concreto’, de Evaldo Mocarzel, que tratam de temas relacionados ao que a mesa discutia – questão indígena, ocupações urbanas… Uma meia-dúzia de gatos pingados levantou a mão, menos que isso (não formavam meia-dúzia). Foi a minha vez de criticar. A gente, da imprensa ‘burguesa’, faz o que pode e, às vezes, o que não pode. O chamamento à responsabilidade individual teve resultado. Aproveito para sugerir agora que, não apenas aqueles jovens da Metodista, mas todos vocês assistam a dois ou três filmes que passam hoje no É Tudo Verdade – o horário do primeiro não ajuda muito, uma da tarde, no CCBB, mas ‘Corumbiara’, de Vincent Carelli, sobre um massacre de índios numa gleba ao sul de Rondônia, em 1985, tem tudo a ver com o que se discutia no debate de ontem. ‘Cidadão Boilesen’, de Chaim Litewski, não sei onde passa nem qual é o horário, mas é hoje, trata do apoio de grandes empresários à repressão aos movimentos de esquerda, durante o regime militar. O tal ‘cidadão’ é o dinamarquês Henning Albert Boilesen e foi executado pela guerrilha urbana por sua ligação com a Oban. Pauleira pura. O terceiro documentário que gostaria que vocês vissem hoje é ‘Moscou’, em que Eduardo Coutinho arma outro jogo de cena – mas o filme não é ‘Jogo de Cena 2’ – para seguir discutindo os limites entre documentário, ficção e realidade. Em princípio, as indagações artísticas e existenciais de ‘Moscou’ não tem a ver com a discussão da miséria e dos movimentos sociais, mas será? Na sexta, quando virem ‘Garapa’, de José Padilha, o social é ostensivo, a maneira como o diretor escancara o espetáculo deprimente da nossa miséria – nossa, digo, brasileira, embora a fome seja um problema universal –, mas o filme não é só sobre isso. Lembro-me de Enéas de Souza, o grande crítico gaúcho, na primeira edição de ‘Trajetórias do Cinema Moderno’, escrevendo, no calor da hora – anos 60 –, que o sol de ‘Vidas Secas’, de Nelson Pereira, não era só social, mas havia ali também um lado de Antonioni, na maneira de armar o plano e isolar os atores, para mostrar que o sol também era ontológico e a miséria, existencial. Não errei na digitação, não. Não é antológico. Estou falando de ontologia, a parte da metafísica que estuda o ser em geral e indaga sobre nossas propriedades transcendentais. Acho que seria muito interessante conversar hoje com Nelson sobre isso, numa discussão que daria novos significados a um de seus grandes filmes pouco valorizados – ‘Fome de Amor’, puro Antonioni, puro Resnais –, mas, claro, estou mistuirando as coisas e daqui a pouco vocês não vão entender nada e dizer que estou delirando.