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‘Meio’ Preston Sturges

Luiz Carlos Merten

15 Junho 2012 | 20h19

Mauro Brider me pede que comente os lançamentos da Classicline, dois filmes de John Ford, ‘O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões’ e ‘A Longa Viagem de Volta’, e dois de Preston Sturges, ‘As Três Noites de Eva’ e ‘Contrastes Humanos’. Vou deixar os de Ford para amanhã, se bem que devo ir a São Francisco Xavier para uma visita a set e, na volta, com sorte, emendo a tradicional feijoada de minha amiga Leila Reis, que é, e não de agora, um evento para enfiar o pé na jaca. Pode ser, portanto, que não tenha tempo nem condições de cumprir amanhã o prometido, mas vamos lá. Tendo de admitir, primeiramente, que nunca vi ‘As Três Noites’, o que tornará meu post sobre Preston Sturges meio desfalcado, mas, em compensação, as reviravoltas de ‘Odeio-te Meu Amor’ me parecem cintilações de gênio e ‘Contrastes Humanos’ é, sim, genial. Assisti-o numa de minhas primeiras viagens à França, no Action Christine, que sempre programa ciclos com revisões de gêneros e autores. Se você for ao Jean Tulard, ‘Dicionário de Cinema’, ele dirá que a comédia de Hollywood estava em crise quando Sturges surgiu para renová-la. ‘Contrastes Humanos’ chama-se ‘Sullivan’s Travels’ no original, As Viagens de Sullivian, e a ditribuidora deve ter achado que manter o título significaria filiar o filme à vertente de Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver.  Bem, era a intenção de Sturges, mas sua viagem swifitiana é feita de contrastes sociais, mais até do que humanos. O filme é sobre um diretor, Joel McCrea, que está cansado de fazer comédiass em plena depressão econômica. Seu sonho é colocar a realidade na tela, e como preparativo sua estrela, Veronica Lake, e ele se disfarçam como ‘pobres’ e caem na estrada para fazer pesquisa, conhecendo a América dos deserdados. Ocorre um problema – vários -, McCrea perde a memória e vai preso, acusad0 de crime. Na cadeia, em pleno Deep South,ele assiste, numa igreja de negros, a um desenho de Mickey Mouse. É uma cena de antologia. Todo mundo ri e a ideia de Sturges é que não há nada de mau com comédias, o importante é não ser alienado nem alienante – como Hollywood, que o filme critica ‘de dentro’. O curioso é que ‘Contrastes Humanos’ é de 1942 e, no ano anterior, a Academia deu seu prêmio de direção ao John Ford de ‘As Vinhas da Ira’ de John Ford, adaptado do romance de John Steinbeck, justamente sobre uma família, os Joads, no turbilhão da depressão, em que ingressa o Sullivan de Joel McCrea. Ou eu me engano ou foi o filme que o transformou em astro e ele forma uma bela dupla com Veronica Lake, a loira de penteado exótico, com aquela onda que lhe tapava o olho. Estou escrevendo meio com pressa, para ir ao Bourbon, onde espero assistir à comédia ‘Apenas Uma Noite’. Nem vou reler o post, mas espero que tenha passado pelo menos um pouco do entusiasmo – da euforia – quie tive ao assistir a ‘Contrastes Humanos’. Não sei se o Mauro já viu, ou reviu, mas espero sinceramente que tenha gostado.