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Luiz Carlos Merten

21 Fevereiro 2010 | 07h25

BERLIM – Na passagem por Belo Horizonte, havia feito algumas observações sobre a página de Cyro Siqueira num jornal de lá e havia manifestado meu estranhamento. Cyro fala de determinados filmes – que amo – e eu fui logo pensando que eram lançamentos em DVD, mas não. Ele viaja nos filmes do seu imaginário, o que é ótimo, mas eu devo ter reclamado da falta daquilo que, em jornalismo, se chama ‘gancho’. Por exemplo, o lançamento em DVD, a reprise, uma exibição na TV etc. Tomei um pau do Santiago – voltem ao post ‘Meia palavra’ -…, que esculhamba com a minha mentalidade de ‘mercado’. Com todo respeito pelo Cyro e pelo Santiago, quero insistir que acho o material mal editado. Nâo vejo problema nenhum nas viagens interiores do crítico – eu teria lido, igual, pois os filmes comentados me interessavam, e muito – se ficasse claro, de cara, que ele estava falando de seus filmes inesquecíveis. Vou contar uma história. Em Porto, lá no começo dos anos 1970, na antiga ‘Folha da Manhã’, eu tinha uma página diária. Página – o jornal era tabloide, mas era uma página inteira que eu podia encher como quisesse, como o Cyro faz até hoje. Num determinado dia, me peguei de calça curta, sem nada o que falar. Nada de mercado, digo. Nenhum gancho. Imediatamente, improvisei e criei uma série de filmes inesquecíveis, os meus cults, que começou com ‘Casablanca’ ou ‘Clamor do Sexo’, não me lembro qual. A série durou um tempo e depois as pessoas, na própria redação, me cobravam aquelas viagens. Curiosamente, até onde me lembro, nunca dediquei uma página a ‘Rocco e Seus Irmãos’, como até hoje – por que? – nunca escrevi sobre Visconti em meus livros. É uma dívida que tenho comigo, e com ele. Escrever sobre Visconti (e westerns). Senti-me frustrado ao ler os textos de Cyro sobre filmes de Nicholas Ray e Fritz Lang e saber que nem eu – nem os jovens que talvez estivessem tendo contarto com eles pela primeira vez – não teriam as obras para confrontar.

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