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Luiz Carlos Merten

01 Maio 2007 | 15h24

Afinal, quem é doente – esses atiradores solitários ou a sociedade que os gerou? Hollywood, por mais alienado e alienante que seja o cinemão, volta e meia se ocupa do assunto porque é um flagelo que, ciclicamente, atinge a sociedade americana. O maior medo é que esses surtos não costumam ocorrer isolados. Vem um e logo pipocam outros, o que, desta vez, ainda não aconteceu ( e espero que não ocorra, por Deus!). Vou misturar tudo, mas estou lendo agora O Vulto das Torres, o livro (de não ficção) de Lawrence Wright que ganhou o Prêmio Pulitzer. Wright pega o 11 de Setembro e faz uma verdadeira anatomia. Discute o pré e o pós-ataque ao World Trade Center. O livro começa traçando o retrato de Sayyid Qutb, o pensador egípcio que buscou no Corão o fundamento religioso para a Jihad. Qutb precisou, num momento de sua vida, se exilar nos EUA, para fugir à perseguição do Rei Faruk, que foi deposto, mais tarde por Nasser (e Qutb também teve uma relação tumultuada com Nasser). Qutb era puritano ao extremo. Em Nova York, seu primeiro destino nos EUA, e depois no interior do país, numa comunidade aparentemente mais ‘saudável’, baseada em fundamentos religiosos, descobriu o que, para ele, era uma sociedade decadente e dissoluta. O maior horror que sentiu foi num corredor de hotel, em NY, quando uma mulher bêbada se atirou em cima dele. Qutb foi executado por Nasser. Virou mártir, o primeiro da Jihad. Ainda estou muito no comecinho do livro – que é volumoso –, mas o puritanismo religioso é essencial na formação da mente não apenas de Qutb, mas dos mártires da revolução islâmica, em geral. Paradise Now já tratava disso (e era um grande filme). Temo fazer alguma associação leviana, mas acho muito intrigante, nesses casos mais do que em quaisquer outros, a relação entre o público e o privado. O cinema não costuma ver, pelo menos nos filmes que valem a pena, essas explosões de violência como algo isolado. A preocupação maior é sempre contextualizar. Não é o sujeito isolado que está doente, mas a sociedade à qual ele pertence. E o problema é esse. Lembram-se de Stallone em Cobra? A chamada do filme era alguma coisa no estilo – o mundo está doente e eu sou a cura. Cobra puxava do trabuco e saía matando. Digamos que, até de forma mais sofisticada, com maior fundamentação política e religiosa, o que o terrorista e o atirador solitário fazem é se arvorar na cura de sociedades doentes. E se os doentes forem eles? Estou misturando as coisas propositalmente. Sei que um maluco desses é considerado irracional e vai para um instituto psiquiátrico, quando consegue sobreviver à prisão. O outro, considerado inimigo do Estado, é jogado em Guantanamo – lembrem-se do filme de Michael Winterbottom – para uma morte em vida. As questões éticas (e até jurídicas), no mundo atual, estão cada vez mais complicadas.