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Luiz Carlos Merten

01 Maio 2007 | 13h59

Em 1968, no começo de sua carreira, o mais clássicos dos novos diretores, Peter Bogdanovich, fanático por Allan Dwan e John Ford, fez, com produção de Roger Corman, um filme sugestivamente chamado Targets (Alvos). No Brasil, foi lançado como Na Mira da Morte. Bogdanovich, ex-crítico, identificou uma tendência da época. Talvez tenham ocorrido esses crimes de massa antes, mas o atirador soltário que desencadeia um morticínio marcou aquela década, um pouco, acho eu, por influência das mortes de John Kennedy, de Luther King e de Robert Kennedy. Em Targets, um decadente astro de horror, interpretado pelo lendário Boris Karloff, anuncia que vai parar de fazer filmes. Ele está cansado daquele tipo de cinema que está sendo superado pela realidade (os EUA viviam o período intenso da escalada no Vietnã e as atrocidades da guerra eram servidas pela TV, o que hoje não ocorre da mesma forma no Iraque). O novo filme de Karloff acaba de estrear num drive-in. Chegam todas aquelas famílias, namorados, amigos para ver de dentro do carro. Detrás da tela, posiciona-se o atirador que começa a disparar (e matar). Ele mira – e dispara. Escolhe suas vítimas aleatoriamente. Não se trata de nenhuma vingança localizada. A vítima é anônima, qualquer um (ou uma). Pá-pá-pá. Bogdanovich prova seu ponto – o horror da realidade superou o horror ingênuo dos filmes. As duas histórias correm juntas, a do velho astro e a do atirador. Bogdanovich não fez uma tese sociológica, mas seu filme identifica um mal-estar social que termina provocando uma atitude de Karloff. Mais tarde, Michael Moore e Gus Van Sant fizeram seus filmes e, no intervalo, surgiram outros, não exatamente sobre atiradores solitários, mas filmes como Pânico na Multidão, de Larry Peerce, em plena era dos disaster movies, nos anos 70. Um terrorista quer provocar morticínio num estádio de futebol. Charlton Heston (ele!) é o policial que vai impedi-lo. O filme é reaça, inscreve-se naquela tendência que floresceu ali por Watergate, quando havia uma crise de autoridade emanando da Casa Branca e Hollywood fez vários filmes sobre a necessidade de lei e ordem como garantias sociais. Citei Pânico na Multidão, assim, ao azar, mas queria citar As Virgens Suicidas, o primeiro filme de Sofia Coppola, sobre aquelas garotas de boa família, com vidas aparentemente perfeitas, mas que, de repente, não matam os outros, mas se matam. Por que? Kirsten Dunst, uma das atrizes do filme, diz coisas interessantes sobre Sofia (e sobre Virgens Suicidas e Marie Antoinette), na entrevista que fiz com ela em Tóquio e que está na capa de hoje no Caderno 2. Por mais diferentes que sejam todos esses filmes, eles terminam falando da mesma coisa. São filmes que tratam de uma sociedade enferma. Alguns só expõem, outros tentam aprofundar, um ou outro apresenta solução, invariavelmente equivocada. Parando – daqui a pouco vou para o terceiro post.