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Luiz Carlos Merten

31 Agosto 2009 | 10h27

Olá, tive um fim de semana meio errático. Minha filha foi para a praia com amigos e eu meio que tirei o sábado para ficar ficar em casa com a Angel, minha neta buldogue, sobre a qual não falo há tempos. Ontem pela manhã, tinha a capa de hoje do ‘Caderno 2’ para redigir, mas antes disso precisava falar com Paulo César Saraceni, um dos homenageados do É Tudo Verdade que começa hoje, por conta dos 50 anos de seu clássico ‘Arraial do Cabo’, um dos marcos definidores do Cinema Novo e da própria história do documentário no País. Comento depois a entrevista com Paulo César. Almocei com amigos – Leila Reis reuniu a velha guarda do ‘Telejornal’ na Chácara Santa Cecília – e à noite fui rever ‘Almoço em Agosto’, que assisti há quase um ano, no Festival do Rio do ano passado. Aliás, daqui a pouco o festival divulga os filmes que integram a mostra competitiva da Première Brasil. Estou louco para saber o que verei a partir de 24 de setembro. Quero falar também de ‘Almoço em Agosto’, mas antes me permitam divagar um pouco sobre teatro. Fui ver na quinta-feira à noite com amigos (Dib Carneiro, Gabriel Villela e Ando Camargo) a peça ‘A Cloaca’, uma montagem do Grupo Tapa, direção de Eduardo Tolentino de Araújo, no Teatro Nair Belo, no Shopping Frei Caneca. Na sexta, Mariângela Alves de Lima e Jefferson Del Rios, críticos do ‘Estado’, fizeram resenhas altamente elogiosas no ‘Caderno 2’ e no sábado, pelo que me informaram, ‘Veja’ colocou a montagem na lista das obras recomendadas. Não descarto a possibilidade de toda essa gente pensante estar certa e eu, errado, mas, como admirador do trabalho de Tolentino, fiquei arrasado. A coisa já começou mal na escolha do texto, que me pareceu muito fraco, além de homófobo e sexista (embora escrito por uma mulher, Maria Goos, que eu não faço a mínima ideia de quem seja). Em geral, não sou de ficar cobrando correção política, mas o problema é que a peça me pareceu ‘nada’. Poderia ser interessante – uma mulher falando do universo masculino, uma confraria de amigos, dando voz a personagens muitas vezes marginalizados ou reduzidos a estereótipos, como o gay, o drogado, o marido incapaz de dar a volta por cima para tentar reconquistar a mulher perdida. A dramaturgia é zero e a própria montagem, não fossem André Garoli e Dalton Vigh – que seguram as pontas; Dalton é o ator de ‘Corpos Celestes’, de Marcos Jorge e Fernando Severo, que, a propósito, desertou do blog; cadê tu, Severo?; Garoli é diretor daquela trilogia do mar, adaptada de O’Neill, que amo –, me pareceu abaixo da média do Tolentino, com uma marcação equivocada especialmente para o personagem do gay. Os cinco minutos finais – o cara abrindo ‘aquele’ roupão, fazendo a pose na parede e ouvindo ópera – confesso que me bateram nos nervos. Fico pensando – de onde surgiu esse clichê de que a sensibilidade gay só se expressa por meio de ópera? Imagino que hoje em dia uma cena como a dos gays torturadores de ‘A Rainha Diaba’, de Antônio Carlos Fontoura, talvez fosse impossível de filmar, porque os grupos representatados se sentiriam discriminados. Negro, gay, drogado – a Diaba de Milton Gonçalves é a própria subversão. Me lembro do Anselmo Vasconcelos, na pele do travesti em ‘República dos Assassinos’, de Miguel Faria Jr., adaptado de Aguinaldo Silva, dizendo que é (como é mesmo a expressão?) ‘uma coisa escabrosa’. “Cloaca’ é a própria. Um horror.