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Cultura » Mas não se matam cavalos?

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Luiz Carlos Merten

21 Abril 2007 | 21h45

Com este título, e tradução de Erico Verissimo, a antiga Editora Globo, de Porto Alegre, publicou o romance de Horace McCoy que Sydney Pollack filmou no fim dos anos 60. Com Jane Fonda à frente do elenco, A Noite dos Desesperados, título que recebeu no Brasil, foi (é) um grande filme que usa um daqueles concursos de dança, durante a depressão econômica, para critica uma sociedade desumana que trata as pessoas como animais. Coloquei este título no post, mas não foi para lembrar o filme de Pollack – se bem que o estou lembrando -, mas para falar de outro filme que vi agora à tarde no canal HBO Plus. Fiquei sem saber o título, mas fui pesquisar e encontrei o original, The Pursuit of Honor, A Procura da Honra, que talvez tenha sido o mesmo que recebeu na TV paga. Dirigido por Ken Olin, conta uma história real que também começa durante a depressão econômica dos anos 30. Veteranos da 1ª Guerra ocuparam uma área de Washington para protestar, exigindo do governo o pagamento de um bônus que lhes havia sido prometido. O governo lançou o Exército contra eles. Don Johnson faz um suboficial, Libbey, que se recusa a usar o sabre contra antigos companheiros de armas e suas famílias. Acusado de insubordinação, vai parar num distante destacamento da Cavalaria, no interior dos EUA. A chamada modernidade, em nome da qual se praticam tantos crimes, o alcança, como uma maldição. O mesmo oficial que comandou o massacre do começo aparece com outra ordem. Sob o comando do General MacArthur, os EUA vão preparar seu Exército para outra guerra (a 2ª) que parece iminente. Nessas novas estratégias de combate, não há mais espaço para a velha Cavalaria. Como parte da extinção da arma, cerca de 500 cavalos deverão ser levados a uma área na fronteira mexicana para ser mortos. Sairia muito caro, na estimativa de MacArthur, investir na alimentação e manutenção dos animais. O general precisa do dinheiro para comprar tanques de guierra. Dan Johnson e seu jovem oficial superior, interpretado por Craig Sheffer, se rebelam e atravessam os EUA, perseguidos pelo Exército, para tentar achar um lugar seguro para os cavalos. Acho que, se fosse para procurar os defeitos do filme, eles apareceriam rapidinho, mas achei a história bonita e a idéia de um novo mundo em marcha, indiferente a valores humanos e de honra, tem tudo a ver com o aqui e agora. Essa odisséia, uma anti-Odisséia, tem algo da grandeza de Joh Ford e Ken Olin cria um personagem, o militar aposentado, interpretado por Rod Steiger, que me lembrou muito o secretário do Interior (Edward G. Robinson) lutando pelos cheyennes em Crepúsculo de Uma Raça, que foi o penúltimo filme de Ford, em 1964. São dois filmes de estrada, sobre um país que vai perdendo suas referências. Já ouço a voz dos que dizem que o passado está morto e enterrado, que não vale ficar com choradeira, que o mundo agora é este. Mas eu, particularmente, gosto quando encontro pessoas, não importa a latitude, que também acreditam que um outro mundo é possível e que vale lutar por ele. Gosto dessas histórias que exaltam a grandeza humana. The Pursuit of Honor pode não ser um grande filme (não é), mas me disse alguma coisa. Me lembrou John Ford, Horace McCoy, Erico Verissimo, tanta gente que amo e que faz parte do meu imaginário. Nada mau para uma tarde de sábado que, dada a minha debilidade física, estava ficando tão modorrenta.