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Luiz Carlos Merten

16 Junho 2011 | 13h06

Confesso que não sou muito fã da fase expressionista, de prestígio, com os filmes que John Ford adaptou de obras literárias, quase sempre com roteiro de Dudley Nichols, nos anos 1930. Incluem ‘O Delator’, que lhe o primeiro Oscar, ‘The Long Voyage Home’, de Eugene O’Neill, já nos 40 e do qual André Garolli fez uma bela versão para teatro aqui em São Paulo, e entre ambos ‘Mary Stuart’, que acaba de ser lançado em DVD pela Versátil. ‘Mary Suart’, com o subtítulo de ‘Rainha da Escócia’, baseia-se na peça do romântico alemão Schiller, nome fundamental (com Goethe) do classicismo de Weimar, sobre o julgamento de Mary por ordem de sua prima Elizabeth, que a acusava de conspiração. Confesso que muito me impressionou descobrir em Londres, na Abadia de Westmister, que essas duas mulheres que se odiaram tanto estão enterradas lado a lado. O filme de John Ford tem o que me parecem os defeitos do período – um tom respeitoso, solene, certa afetação (ou artificialismo). Mas acrescento que o cinéfilo não pode desconhecer o filme. Falasndo certa vez sobre a gênese de ‘Cidadão Kane, Orson Welles disse que devia tudo às pesquisas de campo total que William Wyler já vinha fazendo com o fotógrafo Greg Tolland, mas também que sua matriz havia sido John Ford. E ele dizia três vezes – John Ford! John Ford! John Ford! As pesquisas de cenários e ambientes de ‘Kane’, os tetos baixos, opressivos, os salões que vão ficando gigantescos, a mesa que afasta cada vez mais Charles Foster da mulher, tudo vem de Ford, dos interioresa de ‘A Última Diligência’ e do formato de arena de “Mary Stuart’, que coloca a rainha num plano abaixo de seus juízes, que a cercam de forma implacável. Esse formato de arena ultrapassa o cinema e chega até a TV, no ‘Roda Viva’ da Cultura. E lá, no centro da arena de Ford, Katharine Hepburn. Não sabia da história, mas lendo ‘Print the Legend’, uma das várias biografias de Ford (a melhor?), descobri que o grande diretor e a estrela viveram um tórrido romance, que terminou porque ele, católico, jamais iria se separar da mulher. Katharine ligou-se depois a Spencer Tracy, com quem também nunca se casou, porque ele permanecia preso à mulher (tinham uma filha deficiente, que não queria abandonar). Spencer Tracy encarnou um modelo de retidão em Hollywood, mas viveu sempre dividido, entre a mulher e a ‘outra’. E Katharine, a feminista avant la lettre, se moldava à situação. Ela impressiona naquela arena. Em 1936, Katharine já havia recebido o primeiro Oscar, por ‘Manhã de Glória’. Os outros três vieram nos anos 1960 e 80 por ‘Adivinhe Quem Vem para Jantar?’, ‘O Leão no Inverno’ e ‘Num Lago Dourado’. Até por ela, pela jovem Katharine Hepburn, ‘Mary Stuart’ pede revisão.

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