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Cultura » Marrocos em transe

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Luiz Carlos Merten

05 Setembro 2007 | 13h43

Estou voltansdo do Reserva Cultural, onde fui assistir ao filme Marock, de Laïla Marrakchi, que estréia na sexta. Já estamos em setembro e Marock talvez chegue ao fim do ano como um dos filmes mais inconclusivos da temporada. Tudo é tênue, nada é dito explicitamente, mas a gente poderia inverter o sentido – nada é tênue, tudo fica explicitado nessa arte de meios-tons e coisas não ditas que, no fundo, são mais importantes do que aquilo que é falado. Me emocionei muito com o desfecho, o abraço meio desesperado dos irmãos, mas acho que não tiro a graça dizendo isso, porque não altera grande coisa o impacto que o espectador poderá ter assistindo ao filme de Laïla. Natural, ela própria, do Marrocos, Laïla ambientou seu filme em 1997 e talvez se possa ver agora, há somente dez anos, mais que um retrato geracional, um retrato das transformações do mundo. Marock flagra um mundo em transe – a Casablanca de jovens bem nascidos que parecem encarnar, com atraso, e sejam homens ou mulheres, a falta de perspectivas dos ‘vitelloni’ fellinianos. A trama é centrada em Rita, integrante de uma família islâmica, mas que se envolve com um garoto judeu. Ela freqüenta baladas, fuma baseado, leva o ‘bac’ (o vestibular) meio na brincadeira, empurrando com a barriga o ingresso na maioridade. Ele, Youri, vive na mesma toada, mas parece querer queimar etapas fazendo um jogo perigoso de dirigir em alta velocidade. E há o irmão dela, que, numa família disfuncional e laica, descobre a religião como avatar para resolver, senão os problemas do mundo, os problemas dele. Tenho a impressão que todo o mundo islâmico, e o mundo atual, cabe no Marrocos de Laïla Marrakchi. E, eu sei, não tem nada a ver, mas o filme dela me lembrou Zurlini, com todos aqueles personagens frágeis – frágeis demais para conseguir lidar com a complexidade do mundo. Temo criar expectativa demais, mas gostei de Marrokh. Saí com um certo mal-estar do cinema, mas era diferente do que experimentei ontem, vendo Licença para Casar. Consigo entender mais a juventude marroquina deste filme que aquele padre enervante do Robin Williams. Vejam o filme na sexta e a gente conversa, depois.