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Luiz Carlos Merten

14 Junho 2010 | 10h01

Marcelo Magalhães viu outro dia na TV ‘Pontes de Toko-Ri’ e me pede alguma opinião sobre Mark Robson. Escrevi outro dia um verbete alentado na seção de filmes na TV do ‘Estado’. Lembrei que ‘As Pontes’ é o filme em cartaz no cinema em ‘Ervas Daninhas’. Achei curioso que um ‘autor’ como Alain Resnais citasse um diretor ‘comercial’ como Robson. Perguntei-lhe por que, na entrevista que fizemos por e-mail, no fim do ano passado. Resnais foi evasivo. Disse que era o filme que estava no roteiro, tal como no livro que adaptou, e ele não viu motivo para mudar. Mark Robson é daqueles diretores que os ‘críticos’ – eles? Nós? – adoram detestar. Mas ele foi montador na RKO e, entre outros títulos de nobreza, divide (com Robert wise) o crédito da montagem de ‘Cidadão Kane’. Robson se iniciou na direção sob a batuta de Val Lewton, produtor de filmes de terror que fizeram história. Lewton acreditava no poder da sugestão e encontrou em Jacques Tourneur, Robert Wise e justamente Mark Robson os diretores adequados para os filmes que queria fazer, e que eram muito diferentes do atual terrror gore. Depois de Lewton, Robson foi apadrinhado por outro produtor forte, Stanley Kramer. Antes de virar o diretor no qual os críticos também adoram bater, Kramer produziu filmes de certa relevância, atacando temas sociais que não eram frequentes na produção padronizada de Hollywood. ‘O Invencível’ (pugilismo) e ‘Clamor Humano’ (racismo) são alguns dos filmes que Robson fez com ele, mas o mais engajado de todos os dramas sociais do diretor é ‘Trágica Farsa’, com Humphrey Bogart, que ostenta a reputação de ser um dos grandes filmes sobre boxe, atacando a corrupção nos bastidores do esporte. ‘As Pontes de Toko-Ri’ é quase sempre citado como um dos filmes que justamente destruíram a boa reputação de Robson, mas, além das cenas de ação – os combates aéreos são bem filmados e explicam o Oscar de efeitos -, acho, e nisso não estou sozinho, que o filme levanta questões bem interessantes sobre a (ir)relevância da Guerra da Coreia. Robson assinou depois ‘A Caldeira do Diabo’ e ‘A Morada da Sexta Felicidade’ e já era considerado liquidado quando fez uma delícia de divertissement hitchcockiano – ‘Criminosos não Merecem Prêmio’, com Paul Newman e Elke Sommer – e um drama ‘social’ que muito me impressionou, mas não sei dizer se é bom, porque há muito não o vejo, ‘Nove Horas até a Eternidade’, sobre o assassino de Gandhi. Mesmo que ‘Nine Hours to Rama’ não seja um grande filme, faz parte das minhas lembranças inesquecíveis porque tem, talvez, a mais bela sequência de créditos do cinema – um poema sobre o relógio, ou o tempo, concebido por Saul Bass, ainda mais elaborado do que os títulos que criou para Otto Premiger (e as lágrimas de ‘Bom-Dia Tristeza’  ou os bonequinhos recortados de ‘Bunny Lake Desapareceu’ são geniais). Infelizmente, Robson só foi piorando. ‘O Vale das Bonecas’ é o ‘Caldeira do Diabo’ dos bastidores de Hollywood, adaptado do romance de Jacqueline Susann; ‘Terremoto’, com Sensurround e tudo, faz a súmula dos defeitos do disaster movie; e por aí foi. Mas eu confesso que ‘The Prize’, na linha de ‘Intriga Internacional’, escrito pelo mesmo Ernest Lehman, é delicioso (ou assim me parece, no retrospecto). Newman, como herói ‘hitchcockiano’, dirigido por Mark Robson, é melhor do que com o próprio Hitchcock (‘Cortina Rasgada’). E Elke Sommer, uma das ‘belas’ do começo dos anos 1960, era deliciosa. Como esquecê-la em ‘Um Tiro no Escuro’, de Blake Edwartds, com Peter Sellers na pele do Inspetor Clouseau?