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Cultura » Mário tem razao

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Luiz Carlos Merten

02 Julho 2010 | 20h38

CANCUN- Estou aqui na maior dor. Fazia tempo quer nao me acontecia isso., Perder um post inteiro, na hora de salvá-lo. Poderia até dizer que isso faz parte da maldicao de Ozu. Explico. Estava escrevendo sobre como Mário Kawai tem razao. Eu estou no México, Luiz Zanin está no Ceará, Ubiratan Brasil estava engajado na cobertura da Copa e Antonio Goncalves Filho tem sempre 2000 capas de Cultura para fazer. Por conta disso, o ‘Caderno 2’ perdeu a abertura da mostra de Yasujiro Ozu no CCBB. Imperdxoável, ainda mais com a tradicao de cinefilia do ‘Caderno’. Estava escrevendo que o cinéfilo só tem de conferir a programacao no site do Centro Cultural Banco do Brasil. Nao precisa nem se preocupar com o filme que vai ver. Cada cinéfilo terá sua preferencia na obra do autor e voces também terao seus favoritos no fim da mostra. Vale ver qualquer Ozu, e quanto mais voce vir, melhor. Nao é por acaso que Ozu ostenta a reputacao de ser o mais japones dos cineastas.  Qualquer ‘especialista’ vai lembrar uma das peculiaridades de sua obra extraordinária. Ozu filmava ligeiramente em contraploné, com sua camera colocada no angulo de um observador sentado na esteira de tatame, a palha de arroz, que faz parte do mobiliário da casa japonesa tradicional. Sua obra é toda ela uma reflexao sobre as mudancas ocorridas na família japonesa, e esse tema termina por transformar a família em espelho da sociedade e a casa em representacao do país. Ozu fez 50 e poucos filmes, dos quais restam 36 (acho que o número é esse). Essa obra tem uma clara divisao entre os filmes feitos antes e depois da 2.a Guerra. Antes, eles sao influenciados pelo melodrama de Hollywood. Depois, Ozu atinge o apogeu de sua arte e ele se manifesta por meio do ascetismo, do minimalismo que caracteriza seu estilo, construído sobre elipses tao deliocadas quanto precisas. Os títulos dos filmes se parecem, os atores sao sempre os mesmos, à frente Chisu Ruy, que representava para ele o ‘pai’. Os temas, as próprias ‘histórias’ nao parecem variar. Coloquei história entre aspetas porque, mais do que histórias caudalosas, os filmes de Ozu sao feitos de pequenos episódios e muita observacao. Já falei da casa, mas ela tem duas extensoes – a escola e o escritório. Esse tripé dá sustentacao ao cinema de Ozu e os filmes muitas vezes,. quase sempre?, tratam de renúncia. Em Viagem a Tóquio, o casal visita o filho na capital, mas ele está tao absorvido em suas coisas, sua carreira, que nao dá atencao aos velhos pais. Parece ingratidao, e é, mas os velhos aceitam resignadamente o que ocorre e voltam para casa. Nada mais Ozu. Outro de seus filmes tem por título ‘A Rotina Tem Seu Encanto’. É como se o título tivesse sido criado para definir a obra inteira, nao um filme em particular. Adoraria ficar escrevendo mais sobre Ozu, mas estou digitando diretamentre no post e tenho medo que se perca. O evento aqui em Cancun terminou agora à tarde. Estou duas horas atrás de voces. Inicio amanha a viagem de volta para o Brasi, via Miami. Chego domingo de manha. Vai dar tempo de voces verem Ozu no CCBB. E vejam também o documentário sobre De Sica, a menos que voces prefiram ficar sintonizados na Copa para ver o que a mídia internacional está chamando de escalada do ‘Orange Army’, o ExércitoLaranja, a Holanda, rumo ao título. Mário, Ozu merecia masis. Mas eu volto a ele no tretorno a Sampa.