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Cultura » Marilyn, Welles e Wakamatsu

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Luiz Carlos Merten

07 Junho 2011 | 12h37

No post sobre os 85 anos de Marilyn Monroe – entrei ao vivo no programa de Mário Kertsz em Salvador para falar do assunto e ele foi ótimo; disse que eu estava querendo transformar seus devaneios eróticos num filme de terror –, Saymon deixou um comentário sugestivo. Lembrou ‘Torrente de Paixão’ (Niagara) como seu filme favorito de Marilyn e até sugeriu que o ‘noir’ diurno e solar de Henry Hathaway foi o modelo para ‘Corpos Ardentes’ (Body Heat), de Laurence Kasdan, com a dupla Kathleen Turner/William Hurt. Meu Deus do céu que aquela Kathleen era um negócio sério! Seus papéis em ‘Peggy Sue’, de Francis Ford Coppola, e ‘Crimes de Paixão’, de Ken Russell, lhe garantem um lugar cativo no Olimpo da libido selvagem do cinema. Mas o filme do Hathaway é bem bacana. Hathaway, ele próprio, é um dos grandes que nunca obtiveram reconhecimento à altura de sua importância. E era eclético, o danado. Seus westerns, filmes de aventuras, thrillers, policiais semidocumentários, até a incursão pelo fantástico – ‘Peter Ibbetson’, Amor sem Fim, com Gary Cooper, de 1935 – testemunham uma extraordinária habilidade para se adaptar aos mais diversos gêneros. Marilyn é doentia como a mulher (fatal) que planeja se livrar do marido e as cataratas fornecem o cenário perfeito para o tema que parece de Elia Kazan – a natureza humana que se recusa a ser represada (ou reprimida). Celdani, no mesmo post, faz outra ponte muito interessante, na qual nunca havia pensado. Ele assistiu a ‘O Estranho’, filme considerado menor de Orson Welles, e achou que Alfred Hitchcock pode ter se inspirado no final na igreja para ‘Um Corpo Que Cai’ (Vertigo), considerado sua obra-prima (mas eu, sorry, vou preferir sempre ‘Psicose’). Nunca havia assistido a ‘The Stranger’, não sei por quê, e nem vi o filme inteiro. Assisti-o na TV, não faz muito tempo, e fiquei fascinado pelo clima, a ambientação, o desenho dos personagens. O próprio Welles faz o nazista que se esconde numa pequena cidade de Connecticut, noivando com a filha de um juiz, que não suspeita do passado monstruoso do cara. Edward G. Robinson faz o agente que chega para desmascarar Welles e o filme mostra o jogo de gato e rato entre os dois. Logo de cara, usando elementos expressionistas – enquadramentos, contrastes de luz e sombra – para criar uma tensão que depois se dilui na recriação da vida modorrenta na cidade (e no campus universitário, onde Welles leciona). Esse segundo movimento é cortado pela suspeita e pelo desfecho na igreja, quando a câmera sobe, no campanário (espero não estar me enganando, vi o filme só uma vez). Não me impressionei muito com ‘O Estranho’ e o filme até me deu a impressão de ter um roteiro meio inconsistente, mas que Welles dribla (e nos faz esquecer) com sua brilhante mise-en-scène. Estou achando agora engenhosa, no retrospecto, a associação que o Celdani faz entre o filme e ‘Vertigo’. Prometo prestar atenção na próxima vez que vir ‘The Stranger’. O filme é de 1946, foi o maior sucesso de público de Welles (mais até do que ‘Cidadão Kane’) e foi pioneiro na utilização de cenas colhidas em campos de concentração, quando a cortina do Holocausto foi desvendada, após a 2ª Guerra. Ainda do post de Marilyn, 85 anos. Leandro pergunta se ‘Caterpillar’ será lançado nos cinemas brasileiros? Deixo a pergunta em aberto para quem puder responder a ambos. É um puta filme do japonês Koji Wakamatsu, desmontando o mito do soldado perfeito, por meio da história de um herói que volta mutilado da guerra e inferniza a vida da mulher com sua fome (de sexo, inclusive).