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Luiz Carlos Merten

01 Junho 2011 | 09h17

Se estivesse viva… Detesto esse tipo de início, seja de matéria ou post. Comemoram-se hoje 85 anos do nascimento de Marilyn Monroe. Em agosto, a data é de morte. Marilyn morreu há 49 anos, aos 36. Não deixou outra imagem que não a de sex symbol, um objeto de desejo de todos os machos do planeta, mas Marilyn tinha algo de tão teatral e mesmo artificioso na sua feminilidade que dá para entender porque nove entre dez travestis e drag queens a têm como modelo. Dito assim, parece que não gosto de Marilyn, o que seria absurdo. Quando Liz Taylor morreu, há pouco, escrevi que foi a maior de todas as estrelas e que sua tragédia esteve no pioneirismo de viver publicamente sua vida privada. Marilyn assinalou outra coisa, a passagem do mito à condição de mulher. Filha de mãe solteira – seu nome de batismo era Norma Jean Baker –, só depois o pai, um nórdico (norueguês) a reconheceu, antes de cair no mundo e morrer num acidente de moto. A mãe, como a de Sophia Loren, criou a filha para ser estrela. Marilyn conseguiu, mas seguiu um atalho que foi prejudicial. Casada (aos 17 anos), ela posou nua para um calendário e isso lhe aplicou um carimbo na puritana ‘América’ dos anos 1940/50. Darryl Zanuck, o todo poderoso tycoon da Fox, que a tinha sob contrato, resistiu quanto pode a reconhecer sua ‘estrela’. Ele encarava Marilyn como ‘biscate’, uma garota (de programa?) para entreter quem precisasse de seus serviços no estúdio. Marilyn também era ninfômana. Roy Ward Baker, que lhe ofereceu um papel importante em ‘Almas Desesperadas’, o de uma desequilibrada, dizia que era um caso clínico, mais desequilibrada do que a própria personagem. Marilyn foi humana, isso sim. Tendo chegado ao topo, ela se desiludiu – mas então era só isso? Dinheiro, casa com piscina, glamour? Amante de gângsteres e presidentes, ela morreu num episódio até hoje controverso – barbitúricos, que usava contra a depressão, para se animar, para refrear seus impulsos, ela também pode ter sido assassinada pela CIA, numa queima de arquivo, porque suas ligações comprometiam os Kennedys no poder. Isso só somou ao mito. Ela queria respeitabilidade. Achou que a teria com Arthur Miller, intelectual sério, mas ele próprio enfrentava uma crise pessoal e ideológica em meados dos anos 1950 – os comunistas invadiam a Hungria, Stálin era denunciado por seus ‘crimes’. Quem a amava, ela rejeitou – Joe Di Maggio, astro de beisebol. Marilyn devia achá-lo um brucutu, e ele talvez fosse, mas anos depois de sua morte Di Maggio era o único a visitar seu túmulo, para depositar uma rosa. Marilyn chegou a abandonar Hollywood e se estabeleceu em Nova York, frequentando o Actor’s Studio para tentar mudar de imagem. Seu sonho era ser Grushenka, na adaptação que Richard Brooks fez do romance monumental de Dostoievski. O produtor Sandro Berman nem quis levar sua demanda em consideração, e ela virou alvo de chacota na Metro, que colocava o dinheiro (e ia distribuir) o filme. Billy Wilder conta da cena que teve de repetir 70 vezes em ‘Quanto Mais Quente Melhor’. Poderia tger repetido 200. Para o espectador, o que importa é que Marilyn é deslumbrante como ‘Sugar’, como a vizinha de ‘O Pecado Mora ao Lado’, outro Wilder. Em ‘Adorável Pecadora’, George Cukor usou-a para refletir sobre o matriarcado na sociedade dos EUA. O milionário Yves Montand toma lições de canto, dança e representação para impressionar a corista Marilyn. Apesar disso, a maioria da crítica vai sustentar que o maior papel de Marilyn é a Chérie de ‘Nunca Fui Santa’, de Joshua Logan. Eu, particularmente, amo a Marlyn de Preminger (‘O Rio das Almas Perdidas’) e acho seus ‘pequenos’ papeis em ‘O Segredo das Jóias’ (John Huston) e ‘A Malvada’ (Joseph L. Mankiewicz) a suprema afirmação do seu talento dramático. Não sei. sinceramente, se alguma emissora de TV paga está lembrando a data. Mas seria bom – o cinema é um instrumento de vida e morte. De vida, porque permite às pessoas continuarem vivendo como imagem. De morte, justamente porque essa imagem é congelada no tempo. Como James Dean, que morreu ainda mais jovem, nunca tivemos de Marilyn outra imagem que não a da mulher desejada. Sua beleza não era irretocável, como o rosto de Liz Taylor. Ela foi toda retocada pelo estúdio, tinha tendência a engordar, tinha estrias. E daí? Marilyn rebolando na cena da estação, tocando banjo em ‘Some Like it Hot’; cantando ‘Diamonds Arte Girls Best Friends’ em ‘Os Homens Preferem as Loiras’ (Howard Hawks). ‘My Heart Belongs to Daddy’ em ‘Adorável Pecadora’ são imagens que pertencem ao imaginário do homem do século 20. Para o mito foi melhor, tornou-o mais perene, mas eu gostaria de ter visto Marilyn velhinha. James Dean, pelo menos ,tivemos uma projeção do que ele poderia vir a ser no final de ‘Assim Caminha a Humanidade’, se bem que a ‘velha’ Liz do clássico de George Stevens não fosse em absoluto o que ela se transformou, fisicamente, mais tarde.