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Luiz Carlos Merten

08 Dezembro 2009 | 12h59

Por volta de 1960, Marilyn havia obtido, enfim, seu reconhecimento como atriz, mas se tornara um peso para todos. Com a saída de Zanuck da Fox, ela assinara um contrato sem precedentes com o estúdio, que lhe conferia privilégios nunca concedidos antes a uma estrela (e que ela merecia, bem entendido). Mas Marilyn enervava os executivos do estúdio com suas exigências e virara um transtorno para os Kennedys, porque além de John ela também teria tido um affair com Robert Kennedy. No limite da pressão, suicidou-se – ou foi suicidada? Até hoje, quase 50 anos depois, existe controvérsia. O que ninguém discute mais é o talento, o Mito (com maiúscula). Marilyn podia tudo – cantava, dançava, era boa de humor, segurava o drama mais intenso. No começo de sua carreira, ela teve pequenos papeis em filmes de grandes diretores – John Huston (‘O Segredo das Jóias’) e Joseph L. Mankiewicz (‘A Malvada’). Billy Wilder deu-lhe dois papéis antológicos, em ‘O Pecado Mora ao Lado’ e ‘Quanto Mais Quente Melhor’. Ela havia feito um belo Preminger – ‘O Rio das Almas Perdidas’, que os críticos gostam de citar para dizer que o grande Otto poderia ter sido um inspirado diretor de westerns, se tivesse se interessado pelo gênero. Chérie é considerado o papel que mostrou, em definitivo, que sabia representar, em ‘Nunca Fui Santa’, de Joshua Logan. Em Nova York, para onde se transferira atrás de Arthur Miller, Marilyn frequentara o Actor’s Studio, provocando um comentário machista de Wilder, que dizia que uma Marilyn séria se arriscava a perder todo interesse para o público masculino (ele incluído, bem entendido). Ela morreu deixando inacabado ‘Something’s Got to Give’. Seus dois últimos filmes estão entre os melhores que fez – o musical ‘Adorável Pecadora’, de George Cukor, com o número ‘My Heart Belongs to Daddy’, e o drama ‘Os Desajustados’, que Arthur Miller escreveu para ela, mas é integralmente uma obra de John Huston. Confesso, no mais íntimo do meu ser – para isso existe o blog -, que tenho um sentimento ambivalente em relação a Marilyn. Admiro-a como atriz e acho sensacional seu trabalho com os grandes diretores, mas não tenho muita paciência com o ‘mito’. Há algo de estereotipado na sua exagerada feminilidade, quase uma caricatura, que explica como e por que virou um ícone gay. Mas basta pensar ou, como agora, escrever isso e me vem sua imagem vulnerável e eu fico pensando – e se Richard Brooks tivesse feito dela a Grushenka de sua versão de ‘Os Irmãos Karamazov’, de Dostoievski? Ele chegou a pensar na possibilidade, mas depois não se foi a própria Marilyn ou alguém do Actor’s Studio que a demoveu. Não sei a de vocês, mas a ‘minha’ Marilyn é a de ‘Let’s Make Love’. Por causa de Yves Montand. Cukor, o diretor, era gay assumido. Diante do mito, ele imaginou um personagem masculino que tem de provar a si mesmo e aos seus outros que merece essa mulher. Na ficção, Montand é um milionário que toma lições de canto, dança e representação para fazer o próprio papel numa peça em sua homenagem, só para poder contracenar com Marilyn. Sempre achei que Cukor, astutamente, usou um homem para expressar a necessidade de aceitação da própria Marilyn.