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Luiz Carlos Merten

08 Dezembro 2009 | 12h42

André pega carona no comentário sobre ‘O Revólver É Minha Lei’ – e Rory Calhoun – e me pede que recomende dois ou três filmes de Marilyn Monroe. Acrescenta que não se lembra de ter assistidio algum filme dela. Se o que me diz André é verdade, ele deve ser muito jovem e um cinéfilo principiante, porque Marilyn não foi apenas ‘uma’ encarnação do mito, ela foi e ainda é o maior mito feminino do cinema. Exagero? Creio que não. O cinema produziu muitos mitos, homens e mulheres, mas Marilyn e Garbo adquiriram o estágio superior. Garbo, insondável e misteriosa como uma esfinge, queria ficar sozinha e abandonou o cinema no auge da glória. Até o fim da vida, diretores como Luchino Visconti tentaram seduzi-la com grandes papeis, para que ela voltasse. Visconti queria que ela fosse a rainha de Nápoles na sua versão, nunca realizada, de ‘Em Busca do Tempo Perdido’, d’après Proust. Garbo era a estrela no firmamento. Marilyn foi a estrela que tentou fazer a passagem para a condição humana, nos anos 1950. Existem muitas biografias de Marilyn que tentam decifrar o enigma de sua vida e, principalmente, morte. Em vez da versão oficial do suicídio, em 1962, ela teria sido eliminada pelos serviços de segurança, pelo imbróglio em que teria envolvido o então presidente John Kennedy, seu amante, com mafiosos que também freqüentavam ou haviam freqüentado sua cama. Marilyn era ninfômona. Roy Ward Baker, que a dirigiu num de seus primeiros filmes importantes – ‘Almas Desesperadas’, Don’t Bother to Knock, em 1952 -, dizia que, como a personagem que interpretava, ela também era meio desequilibrada. Durante toda a vida, Marilyn, nascida Norma Jean Baker, compartilhou com a mãe o desejo de virar estrela. Ela posou nua para um calendário, todo mundo sabe, existem, rumores – evidências? – de que ingressou na Fox como garota de programa para servir de escort a executivos e artistas. Por isso mesmo, o todo poderoso Darryl Zanuck a desprezava e fez de tudo para impedir que ela virasse a número um do estúdio e, a seguir, de Hollywood. Mas o público queria Marilyn. Como representação da loira burra, ela chegou aonde queria. Com ‘O Pecado Mora ao Lado’, de Billy Wilder, virou a garota ao lado sexy, o objeto de desejo de todos os machos da América. Mas – e esta foi a tragédia – tendo chegado ao topo, Marilyn não se satisfez. A estrela que era sex symbol quis ser respeitada como atriz. Trocou, agora sou eu que fantasio um pouco – talvez -, o homem que mais a amava, não apenas desejava, o jogador de beisebol Joe Di Maggio, pelo dramaturgo Arthur Miller, que lhe oferecia a respeitabilidade dos meios intelectuais. Miller não a amava, ou ela sempre pensou que não tinha méritos para que ele a amasse. Miller talvez nunca tenha amado ninguém. Quando se une a Marilyn, sua vida está num turbilhão. Ele é um homem de esquerda. Primeiro o macarthismo e, depois, as denúncias contra Stálin haviam solpadado as bases de seu universo. A consciência política vem para ele em primeiro lugar. Almodóvar o cita no começo de ‘Abraços Partidos’. Miller rejeitou o filho que sofria de síndrome de Down. O garoto superou tudo – suas limitações, a rejeição – e perdoou o pai. Almodóvar transforma o relato em melodrama para opor ao outro filho, que quer se vingar do pai e é tão importante no desfecho de seu filme. O post está enorme. Vou quebrar aqui e continuar daqui a pouco.

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