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Maria Madalena, o Evangelho da mulher

Luiz Carlos Merten

09 Março 2018 | 01h01

Por maluco que pareça ser – foi o ano de La La Land e Moonlight, Sob a Luz do Luar -, meu filme favorito do Oscar no ano passado foi Lion, pelo qual Nicole Kidman mereceria ganhar o prêmio de coadjuvante. Sua cena da refeição em família é uma master class de interpretação, aliás, como a de Leslie Manville, no Oscar deste ano, quando fala duro com o irmão estilista numa cena de café da manhã em Trama Fantasma. Garth Davis, era capaz de jurar que era Gareth, também é o diretor de Maria Madalena, que estreia dia 15. De volta à Bíblia… Confesso que, desde que ouvi falar desse filme, fiquei curiosíssimo. O que um diretor tão contemporâneo como Garth queria com essa história? Descobri rapidinho. Em primeiro lugar, oferecer outro grande papel a Rooney Mara. E, claro, o Cristo. Teria de rever O Evangelho Segundo Masteus, mas creio que nem Pier Pasolini teve um Cristo como o de Joaquin Phoenix. Não teve mesmo, até porque o dele, Enrique Irazoqui, não podia ser menos carismático. Por intencional/conceitual que fosse, deixava a desejar. O filme de Garth propõe Maria Madalena antes de Jesus. Ela está sendo obrigada a se casar pelo irmão. Como mulher, suas vontades não contam muito na estrutura da patriarcal sociedade de seu tempo. Que angústia lhe corrói a alma? Seja como for, o pregador é chamado para tirar o demônio do corpo dela. Ele entra na casa, vemos seus pés, ouvimos sua voz. O rosto de Jesus só aparece exatamente no momento em que Madalena refere-se a ‘Deus’. Jesus identifica a origem da insatisfação. ‘Não existe demônio nesse corpo.’ Ela o segue. Curiosa representação de Cristo e seus apóstolos na estrada. Parecem saltimbancos e Phoenix faz um Cristo com cara de profeta do sertão nordestino. Garth deve ter visto os clássicos de Glauber e Ruy Guerra, Deus e o Diabo e Os Fuzis. Mulher entre os homens, mesmo intocada, Maria Madalena adquire a reputação que colou nela por séculos – prostituta. Pedro adverte que ela – a mulher – vai desestabilizar o grupo. Phoenix tem crises místicas. Na ressurreição, fica tão exaurido que parece que Lázaro chupou toda a sua energia. Pedro e seus amigos acreditam que Jesus vá liderar uma revolta política contra os romanos. Judas só espera que o ‘Reino’ traga de volta sua mulher e a filha, que morreram. Jesus fala, e ninguém ouve, ou ouve só o que quer. Suas homilias sobre a família, o amor, o ódio, a devoção a Deus são aquelas que a gente sempre ouviu no cinema, mas o diretor nos obriga a vê-las sob outro viés. Machista, Pedro exclui Madalena para que seja ele a rocha sobre a qual se assentará a igreja do Senhor. Tahar Rahim faz um Lázaro louquinho de pedra, patético. A chegada a Jerusalém, a expulsão dos vendilhões do templo, embora grandiosas, são um anticlímax. Fica todo mundo do gruipo frustrado, decepcionados com seu Cristo, menos Maria Madalena, que soube ouvir, e absorver as palavras sagradas. Por tudo isso, se havia um filme que deveria ter sido lançado ontem, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, deveria ter sido esse. Tudo a ver. Muita gente – religiosos tradicionais – vão achar que se trata de uma fantasia, talvez blasfema. É provocadora, pois não é que Pedro é negro, Chiwetel Ejiofor? O negro discriminando a mulher? Nenhum filme decifra a essência, o mistério de Jesus, por qualidades que tenham as versões de Nicholas Ray e George Stevens, mas esse chega perto. Só sei que ver Jesus e seus seguidores como um bando de esfarrapados nas estradas perigosas (e poeirentas) da Judeia me passou, como nunca, a ideia de como a chamada ‘maior história de todos os tempos’ pode e deve ter sido. Esse Garth não é mole. E seus atores… Uau! Tira o Oscar daquela cambada!