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Luiz Carlos Merten

30 Setembro 2007 | 00h32

RIO – Cheguei agora no hotel, passado da meia-noite, e não resisti. Foi um dia corrido e eu não havia conseguido postar nada. Deixem-me dar uma geral do dia. Aliás, quero começar pela sexta-noite, quando assisti, na Première Brasil, a Maré – Nossa História de Amor, de Lúcia Murat. Tinha uma expectativa muito elevada em relação ao filme – afinal, uma tentativa de musical brasileiro, e pela diretora de Quase Dois Irmãos, que foi um filme que me tocou muito. Maré transpõe Romeu e Julieta para o complexo da Maré, transformando Capuletos e Montecchios em traficantes de facções rivais. Um espectador veio me perguntar, na saída, se eu não achava que o efeito Cidade de Deus, independentemente das qualidades do filme de Fernando Meirelles, havia sido prejudicial para o cinema brasileiro. Entendi o que ele quis dizer. Lúcia Murat não precisou me dizer nada. Havia me encontrado com ela na noite de inauguração do Festival do Rio 2007 e na sua expressão de perplexidade e horror pude ler uma reação negativa a Tropa de Elite. Seu Romeu e Julieta cantado e dançado deve mais a West Side Story (Amor, Sublime Amor), de Robert Wise e Jerome Robbins, do que a Shakespeare. West Side Story filmado, ou invadido, pela violência de Cidade de Deus. Vocês talvez estranhem o que vou dizer, mas gostei mais do filme nas partes do que no todo. Achei os atores sensacionais, uma garotada de comunidade que mostra seu valor. Cristina Lago, a Julieta, que se chama Analídia, é um encanto. Vinicius D’Black, que faz Romeu, ou Jonathã, tem presença e canta bem. As cenas de amor (e sexo) dos dois lançam faíscas na tela. A coreografia é ótima, as músicas, à base de rap e hip-hop, são legais, Lúcia filma bem. Decupado, tudo funciona às maravilhas, mas no conjunto falta alguma coisa. Encontrei na saída algumas pessoas – jornalistas, produtores e diretores – que também acham que falta alguma coisa. Eles arriscaram – emoção. Não sei se é isso, pois em vários momentos me emocionei, mas o filme, no conjunto, não me convenceu. Talvez tenha sido o estranhamento. Tomara! Imagino que Maré esteja na Mostra de São Paulo. Vejam. Eu vou rever, também.