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Luiz Carlos Merten

08 Janeiro 2007 | 11h52

MONTEVIDEU – Aqui estou eu em Montevideu, postando pela primeira vez, com as dificuldades que voces jah sabem. Cada vez que a gente viaja ao exterior, eh sempre a mesma coisa. Jah contei que tenho um carinho muito grande pelo Uruguai, jah que a Cinemateca Uruguaia e o velho cine Carlos Gomes, em Porto Alegre, foram as principais fontes da minha formacao cinematografica. Morando em Porto Alegre, comecei a escrever muito cedo e tive este prfivilégio de morar numa cidade que, nao sei por que, tinha este cinema que, nos anos 60, quando era guri, revisou praticamente todo o cinema de acao de Hollywood (westerns, policiais, filmes de guerra) dos anos 40 e 50. Em Montevideu, assistia aos filmes que eram proibidos pela censura no Brasil e ao cinema de autor, que, há 40 anos, eles privilegiavam muito mais que a gente no Brasil. Fui ontem á Feira de Tristan Narvaja, que eh uma coisa unica. Nela se compram alimentos, eh o lado de feira normal, que Sao Paulo também tem, mas voces imaginem que a isso se somana a feira de antiguidades do Masp, aos domingos, e existem tantas bancas de livros novos e usados como, vou exagerar, a Feira do Livro de Porto Alegre ou a Bienal do Livro de Sao Paulo. Fiz um passeio pela minha memoria, encontrando pilhas de Marcha, um jornal alternativo deles, do comeco dos anos 70. Era um Pasquim menos divertido, mais combativo. Peguei um daqueles exemplares e folheei. A capa era sobre a tortura praticada pelos regimes militares no Brasil, na Argentina e no proprio Uruguai. ERra preciso muita coragem para fazer um jornal daqueles hah 35 anos. E haviam as críticas. Naquela edicao eram sobre Klute, o Passado Condena, de Alan J. Pakula, e Joe, de John G. Avildsen, antes que ele se tornasse diretor das séries Rocky e do Karate Kid. A cartelera de Montevideu, como eles dizem – os filmes em cartaz – mudou muito. Existe a Salña Linterna Magica, da Cinemateca, que faz a retrospectiva dos melhores filmes de 2006 e hoje exibe Caché, do Michael Haneke. Mas os cinemas que eu frequentava na Avenida 18 de Julio, a principal de Montevideu, viraram igrejas universais ou tiendas (grandes lojas). Nada mais restou daquele passado. Soh lembranca. As salas estao localizadas hoje nos shoppings. Mostram quase que soh a producao de Hollywood, como no Brasil. Revi Diamante de Sangue, que comento daqui a pouco. Na TV, hah toda uma programacao de verao com flashes de Punta del Este, uma das praias mais sofisticadas do mundo, frequentada por milionarios e celebridades de Hollywood. Imagine quer os Wayans estao aqui, nao para promover seus filmes, mas para veranear. Trouxeram um entourage de gente de cinema e TV que nem conheco (todo mundo, pelo menos: alguns, sim). O mundo mudou, digo isso sem amargura. Apenas constato. Mas gostei de reencontrar aquele velho numero de Marcha. Nem me lembrava do jornal. Ali estavam historias de vida, de resistencia. Algo como Sol, no Brasil, que foi tema de um recente e nao muito bom documentario, eh verdade. Nesse mundo cada vez mais alienado e massificado, essas sao historias que me interessam. Espero que interessem a meus leitores.