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Marcello, Marco e o ‘cattivo’ Pietro

Luiz Carlos Merten

30 Maio 2009 | 09h33

O HSBC Belas Artes oferece um ciclo de filmes com Marcello Mastroianni. Começou com ‘A Noite’, um grande Antonioni, prossegue desde ontem com ‘A Comilança’, de Marco Ferreri, e deve mostrar, a seguir, ‘Um Dia Muito Especial’, de Scola, e ‘Viagem ao Princípio do Mundo’, um magnífico Oliveira. Revi não faz muito tempo ‘Oito e Meio’, do Fellini, e que magnífico ator era Mastroianni. Era um sujeito viril, um homem charmoso e sedutor, bonito com certeza, mas o que me encantava em Mastroianni é que ele não temia a delicadeza dos gestos e acho que, por isso, seu registro era tão extenso e o grande Marcello não ficava estigmatizado pelos papéis, podendo interpretar um cornuto, um impotente e um gay, um machão com a mesma categoria superior que faz dele um dos maiores mitos do cinema. Tenho de confessar para vocês que preciso (re)ver ‘La Grande Bouffe’, dar-me uma chance porque nunca consegui entrar no universo de provocação de Ferreri. Pouquíssima coisa que ele fez me interessa de verdade – ‘Dillinger Está Morto’, ‘Crônica de Um Amor Louco’. Ferreri radicalizou Bukowski, que comparava a mulher a uma garrafa de cerveja – a gente abre, bebe e mija. Não era o que ele dizia? Machista, misógino, Ferreri deu um papel inesquecível a Ornella Muti, pelo qual ela será sempre lembrada. Não vi o último Ferreri, ‘La Casa del Vizio’, que acho que nem passou no Brasil, mas aquele ‘A Carne’ era horroroso. Paolo e Francesca formam um casal mítico da literatura romântica. O Paolo de Ferreri põe sua Francesa morta no refrigeradior para comê-la, literalmente, aos bocadnhos. P… escatologia! Aliás, por fala em escatologia, ‘A Comilança’ é pródigo em cenas do gênero e o filme entrou para o índex da censura do regime militar, sempre zelosa em defesa da moral e dos bons costumes dos brasileiros. Mas eu acho que me desviei ao falar sobre Ferreri e sua comilança. Na verdade, queria usar Mastroianni como gancho para falar de Pietro Germi. O barão de ‘Divórcio à Italiana’ é um dos grandes papéis de Mastroianni. O cabelo duro de gomalina, a piteira, o bigodinho, o olhar lânguido e aquele desejo de matar a mulher – Daniela Rocca, com seu buço – para se casar com a jovem e sexy Steffania Sandrelli. O barão – Feffè – passa o filme tentando arranjar um amante para a mulher religiosa, para poder matá-la com a impunidade que lhe garante o rígido código de costumes siciliano. No final, apaixonado, ei-lo corno de verdade, numa piada hilária. Pietro Germi sempre foi um de meus prazeres culpados no cinema. Pertenço a uma geração, em Porto Alegre – Jefferson Barros, José Onofre – que o odiava, como grosseiro e vulgar, mas eu sempre gostei secretamente de alguns filmes de Germi, como gostava de outros de Mauro Bolognini, também detestado porque seria um ‘sub-Visconti’. Acompanho com muito interesse o revival de Pietro Germi e não perco a esperança de um dia rever seu thriller ‘Aquele Caso Maldito’ (Un Maledetto Imbroglio), com Eleonora Rossi Drago e a jovem Claudia Cardinale. Estava muito interessado em assistir, em Cannes Classics, à projeção da versão restaurada de ‘Signore & Signori’, com o qual ele ganhou sua Palma de Ouro, abaixo de vaia, 1966 (dividida com ‘Um Homem, Uma Mulher’, de Claude Lelouch). O filme foi exibido em 17 de maio, às 20 horas, precedido pelo documentário ‘Pietro Germi, Il Bello Il Bravo Il Cattivo’, de Claudio Bondi, que entrevista atores, colaboradores, diretores que se revelam influenciados por Germni (Pupi Avati) e também historiadores (Adriano Aprà, Mario Sesti e Marco Vanelli) que expõem suas razões para dizer que ele foi muito melhor do que a fama que tende a diminui-lo. No material de imprensa de Cannes, encontrei uma afirmação, descontextualizada, mas que era o objetivo ideal (final?) do post que queria escrever sobre Pietro Germi. Havia uma frase de Billy Wilder sobre ele. Não sei em que circunstância foi proferida nem quando, mas Wilder dizia que, em todo o mundo, pela constância da obra, o diretor que mais o interessava era Pietro Germi. Billy Wilder! É uma pena que, em vez de filmes manjados – mesmo bons – como ‘Um Dia Muito Especial’, o Cineclube HSBC Belas Artes não esteja ‘exumando’ ‘Divorzio all’Italiana’.