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Cultura » Maravilhosa Angélica

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Luiz Carlos Merten

06 Dezembro 2008 | 23h23

Fiz aquela breve referência à série ‘Angélica’, que Bernard Borderie adaptou dos romances populares de Anne e Serge Colon e o Celdani viajou comigo. ‘Bad Movies We Like’ – existe um livro norte-americano com este título, prefaciado por Sharon Stone. Até estourar com ‘Instinto Selvagem’, Sharon fez tantos filmes ruins que é até um milagre que tenha conseguido sobreviver em Hollywood. São filmes ruins, mas muito deles deles são divertidos como sessões da tarde. Quem ninguém curtiu um filme B que atire a primeira pedra. Celdani lembra-se dos seios arfantes de Michèle Mércier, indomptable Angélique, Marquise des Anges. Tenho de confessar que, em 1964, quando Bernard Borderie iniciou sua série famosa, a nouvelle vague já começava a mudar, mas ainda ditava as cartas do cinema francês mais ‘intelectual’. Eu confesso que era o próprio ‘Médico e o Monstro’. Via os flmes de Godard, Truffaut, Chabrol, Démy, mas também prestigiava o cinema francês mais ‘comercial’. Bernard Borderie e André Hunnebelle fazem parte da minha formação, ou deformação que seja. Já contei que minhas primeiras leituras foram os livros da Coleção Terramarear, as aventuras de Tarzan, o ‘Capitão Blood’ de Rafael Sabatini, ‘Os Mistérios de Paris’, de Eugène Sue, os ‘Mosqueteiros’ de Alexandre Dumas. Entre um Chabrol e um Resnais, eu via ‘O Corcunda’, capa-e-espada de André Hunnebelle com Jean Marais. Entre um Godard e um Truffut, curtia, como prazer secreto – ou proibido – as adaptações de Dumas feitas por Borderie, com Gérard Barray como D’Artagnan e a sexy Mylène Démongeot como Milady. Meu primeiro Lémmy Caution não foi o de Godard, ‘Alphaville’, mas já era interpretado por Eddie Constantine, num daqueles filmes de Borderie que faziam parte das matinés da minha infância. E o ‘corcunda’? Jean Marais, o belo de Jean Cocteau, fazia o dublê de espadachim e ‘bossu’, que usava o disfarce de corcunda para melhor servir à sua causa de justiceiro na França da realeza. Só eu para fazer a ponte entre ‘O Corcunda’ de Hunnebelle e ‘O Corcunda de Roma’ (Il Gobbo), do (pós) neo-realista Carlo Lizzani, que retraçava a história da resistência italiana por volta de 1960. É verdade que nunca estive sozinho, pois Jean Tulard também admite o honesto razer que lhe proporcionaram tantos Borderies e Hunnebelles. Tulard chega a ver qenialidade em ‘Fantomas contra a Scotland Yard’, com Louis De Funès como comissário judeu, rabugento e sujeito a gafes, antecipando as comédias recordistas de público que este ator mitificado nos anos 50 e 70 fez com Gérard Oury, pai da roteirista e diretora Danièle Thompson. Mas Angélica era especial. Havia a beleza um tanto vulgar de Michèle Mércier, mas havia também o mistério de Paris, o inesperado daquela ‘Cour des Miracles’, espécie de Paris noturna em que os cegos voltavam a ver e os coxos a andar, numa verdadeira revanche dos miseráveis. E havia o erotismo. Nunca esqueci de uma cena da primeira ‘Angélica’. A heroína se casou com o repulsivo Joffrey De Peyrac (Robert Hossein), homem repulsivo, com cara deformada por cicatrizes e aleijado da perna. Eu devia me projetar no personagem, talvez mais do que outros espectadores, talvez, mas a cena em questão é aquela em que Joffrey e Angélica encontram a estátua da ninfa. A escultura está em ruínas, ou recoberta pela lama, não me lembro. Só sei que Joffrey começa a ‘despir’ a escultura de suas impurezas. As mãos deslizam pelos seios volumosos da estátua, acariciam seu rosto e, com a música de Michel Magne de fundo, é como se Joffrey, na verdade, estivesse explorando o corpo de Angélica, que se casou com ele, mas ainda não é sua mulher. Como este feio seduz a bela e como a indomável Angélica enfrenta o próprio rei em Versalhes e o sultão, ao qual é vendida como escrava, tudo isso compõem a saga dos folhetins do casal Colon, que Bernard Borderie contou em quatro filmes que o canal TV 5 Monde vai exibir a partir do dia 11, e sempre às quintas-feiras, às 21h30 – ‘Angélica, a Marquesa dos Anjos’, ‘Angélica e o Rei’, ‘Indomável Angélica’ e ‘Angélica e o Sultão’. Não seria louco de dizer que nenhum desses filmes é grande, mas e daí? Não seria o espectador, e cinéfilo, que sou sem esta mistura, que a muitos parecerá extravagante, de Borderie e Bergman. O primeiro livro que comprei com meu dinheiro, e li, foi um Tarzan, ‘O Rei das Selvas’, mas logo em wseguida já estava lendo Machado de Assis. Fui diretamente de Edgard Rice Burroughs para ‘O Memorial de Aires’, meu primeiro Machado. Sabem de uma coisa – não renego, até hoje, minha paixão pela literatura e pelo cinema ‘populares’ (neste sentido de popularesco, mesmo). Até hoje entro em sebos esperando encontrar alguma velha brochura de Emilio Salgari, mas quem diz que eu consigo encontrar algum Sandokan perdido por aí? E, se encontrasse, seria uma madeleine? Talvez seja melhor que não. Meu melhor tempo reencontrado pode ser aqui no blog, compartilhando experiências com vocês.