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Luiz Carlos Merten

28 Fevereiro 2009 | 22h55

Estou tendo um fim de semana mais teatral do que cinematográfico. Fui ver ontem à tarde ‘Glória ao Cineasta’, de Takeshi Kitano, cada vez mais distante do grande diretor que parecia ser com ‘Hana-bi – Fogos de Artifício’. À noite, emendei com ‘A Alma Boa de Setsuan’, o texto de Bertolt Brecht, na montagem com Denise Fraga. Não sou nenhum especialista em Brecht, mas com exceção do começo e do fim – a revelação do cenário e a ausência de um desfecho para tensionar o espectador – não vi muito distanciamento crítico e, muito menos, o que leio sobre as interpretações épicas que os textos de Brecht propiciam. Achei a coisa mais para uma carnavalização baseada no escracho, não ruim, com certeza, mas também não ‘brechtiana’. O diretor Marco Antônio Braz fez uma apropriação, um Brecht abrasileirado e pós-moderno, e o aspecto mais interessante é mesmo o próprio texto, com sua idéia de um capitalismo ‘chinês’, mais do que nunca na ordem do dia. Gostei tambem do elenco, Denise Fraga, Ary França, Cláudia Mello e Joelson Medeiros, os atores que já conhecia. Confesso que estava morrendo de medo, porque Denise Fraga, na TV e do que vi dela no teatro, me parece a antibrechtiana. Não mudei de idéia, mas essa outra via que o diretor Braz e ela propõem para o distanciamto brechtiano me pareceu interessante. As quase duas horas do espetáculo passaram voando, mas não diria que se trata de uma grtande montagem. Gostei de ver, isso sim. Minha maratona de teatro prosseguiu hoje com ‘Zoológico de Cristal’, de Tennessee Williams, dreção de Ulysses Cruz, com Cássia Kiss na pele da mãe, Amanda, e com Erom Cordeiro, o garoto de ‘Vingança’, na pele de Jim O’Connor. Assisti a dois filmes adaptados de ‘The Glass Menagerie’ – o de Irving Rapper, que no Brasil se chamou ‘Algemas de Cristal’, e o de Paul Newman -, mais a montagem com Regina Braga e seu filho, antes da atual. Ou me engano ou se trata de uma das primeiras peças de Tennessee, já abordando aquele universo de família e decadência pelo qual ele foi sempre atraído. O filho é, obviamente, o proprio dramaturgo e acho que essa montagem até insinua mais – no fim – o homossexualismo do filho, ou seja, do autor, um tema tabu que Hollywood sempre edulcorou nas muitas adaptações feitas da obra do grande escritor. Fiquei meio desconcertado com a montagem. Acho que a tradução meio que ‘naturaliza’ a poética de Tennessee Williams, e isso não deixa de entrar em choque com a interpretação de Cássia Kiss, que investe numa composição que me pareceu um tanto over (mas que ela segura com técnica, mais até do que garra). Confesso que estava me aborrecendo, mas aí, no segundo ato, a longa cena entre a filha e o estranho me pareceu muito bem resolvida e interpretada. Terminei gostando, pelo menos parcialmente. Amanhã, prossigo na minga maratona de teatro assistindo a ‘Rainhas’, na montagem de Cibele Forjaz.O texto sobre a rivalidade entre as rainhas Elizabeth I e Mary Stuart, de autoria de Maxwell Anderson – não sei se a peça dele foi o ponto de partida de Cibele -, inspirou um filme de John Ford, em 1936, ‘Mary of Scotland’, com Katharine Hepburn. Não gosto muito dos filmes ‘expressionistas’ de Ford nos anos 30 e 40 – ‘Patrulha Perdida’, ‘O Delator’ e ‘The Long Voyage Home’, baseado em Eugene O’Neill, mas sempre me impressionou muito o cenário do tribunal de ‘Mary of Scotland’, que cria uma espécie de arena (como no programa ‘Roda Viva’, da TV Cultura). Orson Welles, que admitiu mais de uma vez quanto devia a John Ford, como farol para ‘Cidadão Kane’, não se inspirou só em ‘No Tempo das Diligências’, mas também em ‘Mary’, para suas pesquisas sobre as dimensões do cenário em sua obra-prima. Mesmo não gostando muito do que vi anteriormente da diretora, estou curioso em relação a ‘Rainhas’. Merda! (Para desejar sucesso no espetáculo de amanhã). Tomara que seja bom.

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