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Maradona Kusturica

Luiz Carlos Merten

20 Maio 2008 | 13h52

CANNES – O filme chama-se ‘Maradona Kusturica’, ou mais exatamente ‘Maradona by (por) Kusturica’. Juntaram-se dois grandes egos. Na abertura do próprio filme, o diretor toca guitarra no show de sua banda em Buenos Aires, sendo apresentado como o Diego Armando Maradona do cinema. Kusturica pode até irritar os brasileiros, mas parte do princípio de que Maradona é mais do que o maior jogador do mundo. É Deus na Terra, ou Gilgamesh, a quem ele o compara. Como Deus, Maradona tem uma igreja na Argentina e fiéis que rezam o ‘Maradona Nuestro’ em vez do ‘Padre Nosso’. Kusturica poderia dizer como Flaubert – em ‘Madame Bovary’ – que Maradona é ele, mas prefere compará-lo aos personagens de alguns de seus maiores filmes: ‘Dolly Bell’, ‘O Ano em Que Papai Viajou a Negócios’ e ‘Gato Branco Gato Negro’ (pode ser o inverso). Como o mágico deste último, Kusturica diz que o maior inimigo de Maradona foi sempre o próprio jogador. Maradona conta tudo sobre as drogas. No final, ele diz que só lamenta porque, se não fosse a cocaína, ele poderia ter sido um jogador maior ainda. Maior como, alguém perguntou na coletiva? Não haveria Pelé, ele retrucou. Embora tenha prometido às filhas nunca mais falar sobre Pelé, Maradona admite que não resiste. Nem ele nem Kusturica têm muito apreço, acho que menos por Pelé, o atleta, do que por Édson Arantes do Nascimento, o homem, a quem Maradona, um tanto pejorativamente, chama de ‘coitado’. Maradona também bate forte em George W. Bush e Jorge Havelange, acrescentando que a prova de que Deus existe é que o Brasil nunca foi campeão durante os 20 anos de Havelange na Fifa. Mas ele elogia Ronaldinho. Diz que os barcelonenses deviam parar de criticar o jogador e o Barcelona devia se preocupar mais em mantê-lo no time. Se Ronaldinho for para o Milan, bye-bye Barcelona. ‘Maradona Kusturica’ é, ao mesmo tempo, um panfleto político pró-Fidel, Che, Hugo Chávez e Evo Morales, e uma grande celebração de dois personagens dionisíacos, o jogador e o autor do documentário, que se projeta nele – embora Kusturica faça a ressalva de que o panfleto seria muito mais radical, se fosse para expressar a sua visão do mundo atual. Kusturica divide a história do futebol em antes e depois do golaço de Maradona contra a Inglaterra, repetido várias vezes ao longo do filme. Margaret Thatcher entra em cena, como personagem animada, para perder a cabeça, tentando jogar com Maradona. Aquele gol expressou o revide, a vingança de todo um povo, sustenta Kusturica, referindo-se, claro, aos argentinos que haviam sido massacrados nas Malvinas. O filme é um duplo ensaio na primeira pessoa – quando não é Maradona falando, é o próprio Kusturica. Não é, como alguns gostam de pedir, um documentário ‘objetivo’ – como o ‘Brizola’ de Tabajara Ruas, exibido no Cine PE, também não era. Vocês já podem imaginar a fila enorme de gente, e órgãos de imprensa, querendo bater em Maradona e Kusturica por seu ‘esquerdismo’, digamos, tardio. Mas o cara é um personagem fabuloso. OK, não é Deus, mas, segundo Kusturica, pelo que se deduz de seu filme, Deus pode muito bem ter criado Maradona à Sua imagem.

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