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Luiz Carlos Merten

31 Agosto 2007 | 10h45

Hora da saudade, pegando carona no comentário da Emma sobre o Marabá. Falei da reforma do cinema no Centro de São Paulo e a Emma lembrou-se do Marabá, em Porto Alegre, na ponta da Praça da Alfândega, na Rua da Praia – que não tem praia. Emma viu lá Os Esquecidos e Tristana. Na minha lembrança, o Marabá era o cinema que exibia a produção da PelMex, a distribuidora Películas Mexicanas. Foi lá que vi muito Cantinflas, Maria Antonieta Ponz, Maria Félix, Libertad Lamarque. Boa parte dos filmes que comentei durante o recente Festival de Cinema Latino-Americano, na homenagem a Gabriel Figueroa – Macario, Animas Trujano, os filmes do Emílio Fernández –, eu via no antigo Marabá, de Porto Alegre. E também filmes japoneses. Esse, eu vou tirar do baú. Nem me lembrava mais, mas a memória é um fluxo que só necessita de um estímulo para jorrar, que o diga o crítico (proustiano) de Ratatouille. A citação ao Marabá foi a minha madeleine e estou lembrando de um filme que havia esquecido, O Cristo de Bronze, sobre um padre português (ocidental, pelo menos) no antigo Japão. Ele se envolvia com uma gueixa e renegava sua crença, quando os cristãos eram perseguidos no país. Me lembro que o momento culminante era quando os cristãos, para mostrar que estavam renegando Jesus, tinham de pisar no crucifixo. O padre devasso pisava, a gueixa preferia morrer a fazer isso, e não porque fosse algum tipo de devota, mas por integridade moral, o que provocava grande tormento no cara. A cena, contada agora, era o equivalente da de O Manto Sagrado, de Henry Koster, quando Jean Simmons desafia o imperador e, mesmo não sendo cristã, prefere morrer ao lado do atormentado Richard Burton a viver sob o reino daquele César maluco. O Cristo de Bronze! Que filme é esse? Vou procurar no Google e no IMDb para ver se tem registro. Se vocês souberem, me avisem. O mais incrível é que a deterioração do Centro não é um problema de São Paulo. É da maioria das capitais brasileiras, onde a cultura dos shoppings tirou do Centro o seu lugar de destaque na vida metropolitana. Me dá uma imensa tristeza quando vou a Porto Alegre e passo ali pelo Centro. Todos aqueles cinemas da minha infância e juventude – Ópera, Rex, Guarani, Imperial, Cacique – fecharam, viraram garagens, igrejas universais ou bingos, que agora, de qualquer maneira, estão fechados também. Sempre que me lembro do Cacique me vêm aqueles dois painéis laterais, dois índios de, sei lá, dez metros de altura, um trabalho maravilhoso do artista plástico Glauco Rodrigues (tenho quase certeza de que era dele). Aquilo ainda existe? Foi tombado ou se perdeu? O único de todos aqueles cinemas que sobreviveu foi o Capitólio, que está sendo transformado em Cinemateca, mas a obra, para variar, está emperrada por falta de dinheiro. Essa deterioração do Centro e dos cinemas de rua têm tudo a ver com a perda de espaço do cinema brasileiro. Os shoppings não são só elitistas. São caros. Claro que o problema do cinema brasileiro não é só este, mas é um dos, podem crer.