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Luiz Carlos Merten

13 Fevereiro 2007 | 21h34

BERLIM – Meio-dia e lah fui assistir a Irina Palm, sem saber nada do filme nem do diretor Sam Garbaski. O maximo que sabia, porque vi o nome dela na lista de artistas e tecnicos que deveriam participar das coletivas do dia, eh que o filme eh interpretado por Marianne Faithfull, um icone dos anos 60 que nao cessa de se reinventar. O filme comeca com vocacao para dramalhao – um menino estah morrendo no hospital, o medico acena com a possibilidade de sobrevivencia por meio de um tratamento que eh caro. A familia nao tem dinheiro. Pai e mae sao duros e o filho anda meio exasperado com a mae (a nora tambem vive em atrito com ela), mas eh da avoh, Marianne, que vem a solucao. Desesperada, ela bate de banco em banco, atras de emprestimo, mas nao tem garantias para oferecer. Busca emprego, mas tambem estah muito velha para o mercado de trabalho. No limite do desespero, ela passa por esse local chamado de Sex World e enconbtra o cartaz pedindo hotesses. Ela se apresenta e o gerente lhe explica que se trata de um eufemismo para whore. Sugere que ela estah velha demais, mas pede para ver as maos dela, verifica que sao macias e lhe explica o que, exatamente, ela terah de fazer – o emprego eh de masturbadora. Exatamente, ela fica numa salinha, sentada diante de um buraco no qual os clientes introduzem voces sabem o que e ela o masturba. Marianne vira o maior sucesso, formam-se filas para desfrutar dos servicos de Irina Palm, o pseudonimo que ela adota. Irina/Marianne arranja dinheiro para pagar o tratamento do neto, arranja, potencialmente, um namorado (o gerente da casa), mas o filho descobre e uma empresa rival tenta rouba-la do emprego, o que faz com que, lah pelas tantas, o tema termine se deslocando da familia para a lealdade, ou a confianca, que independem de lacos familiares. Pelo teor da historia, voce pode imaginar que Sam Garbaski poderia ter feito um filme grosseiro, vulgar, sordido. Irina Palm, o filme, nao eh nada disso. Nunca vi, aqui em Berlim, um filme ser aplaudido tantas vezes em cena aberta. Os aplausos eram para Marianne, velha dama indigna (ela jah estah com mais de 70 anos) e que ainda nao perdeu o gosto pela transgressao. Voces leram o post, sabem que eu me emocionei com Marion Cottilard, a Edith Piaf de La Mome. Mas estou comecando a mudar de ideia. As maos de Marianne executam um baleh no filme como voceh nunca viu (e muito menos filmado daquele jeito). O problema eh que, se quem fica digitando o dia todo corre o risco de contrair bursite, Marianne contrai penissite. Eh doida essa mulher. Eh maravilhosa, Marianne Faithfull. Um premio para ela nao seria soh um reconhecimento ao seu talento, mas tambem aa sua ousadia.

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