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Cultura » Mann, ‘A Queda’ e a desconstrução do herói

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Luiz Carlos Merten

24 Dezembro 2009 | 13h26

PORTO ALEGRE – Chove torrencialmente aqui na cidade. Não é um toró. É chuva contínua que já dura algumas horas. Parece que vamos ter um Natal chuvoso. Que seja! Roberto Alexandre, pegando carona no post sobre ’55 Dias de Pequim’ – em que falei também em outra produção de Samuel Bronmston, ‘A Queda do Império Romano’ -, conta que acaba de assistir a ‘Winchester 73′ e me pede que comente a parceria Mann/James Stewart. Não me furto a retomar esse assunto, Roberto Alexandre, mas a parceria Mann/Stewart já me rendeu inúmeros posts, que poderás localizar se fores ao índice remissivo do blog. Se tivesse à mão o dicionário de Jean Tulard, faria a transcrição do que ele diz, sem medo de estar errando, mas Tulard cita Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon e eles dizem que os westerns de Mann são o cinema ’em estado puro’. Acabas de ver ‘Winchester 73’, mas eu tenho a impressão que ‘Um Certo Capitão Lockhart’ (The Man from Laramie) e ‘O Preço de Um Homem’ (The Naked Spur) são ainda melhores. E eu confesso que tenho pena dessas pessoas que catalogam o western como cinema de gênero e ficam achando que Mann não é tão grande quanto… Sei lá, os maiores. Já falei tanto desses westerns que quero retomar a colnversa sobre Mann enfocando ‘A Queda do Império Romano’. Já escrevi sobre uma sensação que tenho. Nunca poderei confirmá-la. Glauber (Rocha) viu ‘A Queda do Império Romano’. A cena final é o plano mais glauberiano que Glauber não filmou (ou a obra de Mann é que foi farol para o profeta do Cinema Novo?). Na entrevista que fiz com Fábio Barreto, sobre ‘Lula, o Filho do Brasil’, Fábio me contou como Glauber frequentava sua casa – a casa de seus pais, os produtores Luiz Carlos e Lucy Barreto – e os levava, ao iremão Bruno e ele, a ver westerns de John Ford. Lembro-me que, no arquivo do ‘Estado’, há uma entrevista que Glauber deu na época de ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’, dizendo que o filme é seu western e relatando como a influência de notórios westerners foi decisiva para ele (ele cita especialmente o Howard Hawks de ‘Rio Vermelho’). A imagem de Sophia Loren conclamando o povo de Roma enquanto o império está sendo leiloado é, para mim, sempre foi, a origem de ‘Terra em Transe’. Será mera coincidência? Pode ser, mas Glauber fez seu filme somente três anos depois. Ou seja, teve todo o tempo de ver o épico de Mann. Em 1961, com ‘El Cid’, Mann criara um dos mais belos épicos – o mais? – do cinema. Fico arrepiado só de pensar naquele plano em contraplongê, com a música de órgão de Miklos Rosza ao fundo, depois que Ximena (Sophia Loren) amarrou o corpo do marido ao cavalo e o Cid morto comanda a última ofensiva contra os mouros. Não existe nada mais belo do que aquilo, mas na ‘Queda’, o grande homem, o homem, excdepçcional, morre logo no começo. Ele queria que seu sucessor fosse o general Stephen Boyd, mas uma intriga palaciana coloca no poder seu filho Commodus e será a ruína do império. ‘A Queda’ desconcertou meio mundo na época do lançamento. Como épico de uma derrocada, desconstrói o herói, o que de alguma forma deixa o espectador sem chão. Aquele final, porém, sempre me apaixonou. Tenho revisto ‘A Queda’ na TV paga, em sucessivas reprises do filme. A versão agora lançada em DVD é remasterizada, o que significa que som e imagens devem estasr nos trinques. O começo é na neve e o tom é sombrio. Com o tempo, fui entendendo melhor o filme e o que Mann e seus colaboradores – os roteiristas Ben Barzman e Basilio Franchina – queriam dizer. Mal comparando, assim como George Lucas fez da antiga trilogia ‘Star Wars’ um épico sobre a construção do herói e, depois, recuou no tempo para mostrar a construção do vilão na trilogia recente, que virou, na cronologia do projeto, a primeira, Mann, em meados dos anos 1960, antecipava um mundo em heróis. O império para quem paga mais. ‘A Queda’ acelerou a dertocada do próprio império de prpodução de Samuel Bronston, mas o filme, com certeza, está na origem do ‘Gladiador’, de Ridley Scott. Me deu hoje uma vontade impensa de rever ‘A Queda do Império Romano’. E, Deus!, que Sophia Loren é deslumbrante como Lucilla.

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