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Luiz Carlos Merten

08 Fevereiro 2012 | 10h10

PARIS – Mais neve e frio, como se diz no Sul, de fazer passarinho cair do galho. Meu dia ontem foi estressante. Fui fazer uma entrevista, mas tudo parecia conspirar contra. A lan house que costumava frequentar no Quartier Latin fechou, não conseguia me comunicar pelo telefone público com a redação. Foi um cauchemar, pesadelo. Mas tive minhas compensações. Havia ficado indignado com um novo livro de Jean A. Gili sobre o cinema italiano, em que ele enumera as obras faróis de cada ano e, em 1960, cita umas cinco ou seis, esquecendo-se, ó crime, de meu amado ‘Rocco’. Mas me reconciliei com Gili ao encontrar, numa liquidação, por 7,5 euros, outro livro mais antigo, e também ligado ao cinema italiano. ‘Luigi Comencini’ – comecei a ler e viajei nas lembranças. As comédias dos anos 1950 – a série ‘Pão, Amor e..’, com a qual Comencini foi acusado de matar o neorrealismo (ah, os críticos, gente mais burra, pelamor de Deus), a minha favorita, ‘Mulheres Perigosas’, e os grandes filmes dos anos 1960, ‘Tutti a Casa’, ‘La Ragazza di Bube’ e as obras-primas sobre a infância carente e/ou assassinada, ‘L’Incompresso’, ‘Lo Scopone Scientifico’, o próprio ‘Casanova’ (jovem), com Leonard Whiting. As mulheres de Comencini – Claudia Cardinale, Sylva Koscina, Dorian Gray. Paris é uma festa, e cada um faz a sua. A minha passa invariavelmente pelo cinema. Na Filmoteca do Quartier Latin, no ciclo Cinema & Literatura, revi ontem ‘Os Irmãos Karamazov’, mais Richard Brooks do que Dostoievski, mas o próprio autor russo ia se reconhecer na adaptação, No Action Christine, outro ciclo, 14 obras a redescobrir, me permitiu rever ‘The Indian Fighter’, um western pró-índio de Andre De Toth, com Kirk Douglas, também produtor, Elsa Martinelli e Walter Matthau, aqui batizado como ‘La Rivière de Nos Amours’. Ontem, no mesmo ciclo, havia descoberto ‘The Mortal Storm’, de Frank Borzage, com James Stewart, Margaret Sullavan, Robert Young e Robert Stack, num de seus primeiros, senão no seu primeiro filme. Um melodrama de 1940 que, sob acertos aspectos, antecipa ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’, de Vincente Minnelli. Uma família dividida pelo nazismo, as perseguições aos judeus, a queima de livros. 1940! Tudo isso e mais ‘Les Chants de Mandrin’, de RAZ, Rabah Ameur Zaïmeche. A utopia reinventada, e num filme de época, que remonta ao século 18. Mandrin é executado e seus companheiros desafiam o sistema da época para publicar um livro de poemas em sua homenagem. RAZ corre o risco de ser chamado de anacrônico. Atração por personagens marginais, um sistema comunitário em que artistas e técnicos alternam posições e no qual a ficção permite ao marquês se integrar ao bando de criminosos. Em 2012! Mas feito com uma beleza e um  desprezo pelas convenções e pelas imperfeições que me deixaram siderado. Jean-Thomas, da Imovision, vai nos fazer o favor de levar o filme para a Reserva. A revolução/a utopia em marcha. Uma frase ao azar de RAZ na entrevista a ‘Transfuge’ – “A revolução hoje vem des mecs da periferia que constroem a economia informal. Sont notre seul espoir.” RAZ também é ator. Recita um texto admirável. Não é dele. É de Mardoror, Latréaumont. Agora, tiau. Estou indo para o aeroporto. Berlim me aguarda. Isso, naturalmente, se meu voo (Air France) não tiver sido cancelado por causa da greve.