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Luiz Carlos Merten

18 Julho 2011 | 22h13

Mauro Brider sempre me alimenta com a possibilidade de novos posts e lhe agradeço por isso. Agora mesmo, ele me pergunta o que penso de Rouben Mamoulián e acrescenta que, como Richard Fleischer, o considera pouco valorizado pelos críticos.  Em 1995, a pedido da editora gaúcha Artes & Ofícios, escrevi um livro de ensaios sobre o centenário do cinema. Chamei-o, ou acho que foi o editor, ‘Cinema – Um Zapping de Lumière a Tarantino’. O livro parece que vendeu bem no Rio Grande, pois foi indicado como leitura do curso de cinema da PUC, Pontifícia Universidade Católica. A editora me contactou para uma reedição, mas eu andava bodeado com o Tarantino – Walter Hugo Khouri me dizia que ele, Quentin, era uma fraude e não ia sobrar – e propus escrever outro livro. Achei que não dava para substituir só o capítulo de Tarantino, era uma questão de conceito. Produzi, rapidamente, ‘Cinema – Entre a Realidade e o Artifício’, pegando carona no impacto que me produzira o musical ‘Moulin Rouge’, de Baz Luhrmann. Num dos capítulos do livro, resolvi homenagear justamente Mamoulián como um dos autores que fizeram avançar a linguagem. Meu estudo era (é) centrado em ‘Rainha Cristina’, com Greta Garbo. É o meu Mamoulián favorito e tem aquela cena genial da estalagem, depois que a rainha Garbo faz sexo com John Gilbert e se acorda no meio da noite, tocando todos os objetos do cenário como quem quer se apossar deles, para carregar a lembrança daquele momento – o da descoberta da sexualidade. Não podemos esquecer que a rainha veste-se como homem e é ali, na estalagem, que vira mulher. Aquilo é o nascimento de Alain Resnais, ou assim me parece. Gosto de ‘O Médico e o Monstro’, a versão com Fredric March, e ‘Sangue a Areia’, a versão com Tyrone Power (e Rita Hayworth como Dueña Sol), mas tenho essa queda por ‘Rainha Cristina’. Mamoulián veio do teatro e, um pouco como George Cukor, foi parar em Hollywood, por volta de 1930, porque o cinema sonoro precisava de diretores que soubessem dirigir atores e, principalmente, os soubessem fazer ‘falar’. A voz de Garbo, grave, anasalada, contribuiu para aumentar ainda mais o mito, mas John Gilbert tinha uma voz fina, pouco viril, e não houve Mamoulián que o salvasse. Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, observa que, apesar da origem teatral do diretor, nenhum de seus filmes evoca o palco, e isso porque, como sustento, Mamoulián foi um dos grandes gramáticos do cinema, na fase anterior a Orson Welles. Na verdade, em ‘Cidadão Kane’, Welles se apropriou das invenções de Mamoulián (e de outros grandes cineastas). O interessante é que, por maior que tenha sido, ele sofreu graves revezes. Em 1944, Otto Preminger, como produtor executivo (ou coisa que o valha), o demitiu do set de ‘Laura’, assumindo a direção do filme que viria a ser um clássico da tendência noir. Preminger jurava que o fez para salvar o filme, argumentando que Mamoulián entendera a história de forma errada. Para ilustrá-lo, Preminger mostrava fotos com o figurino escolhido por Mamoulián, uma coisa tipo túnicas gregas, que não tinha nada a ver com a modernidade da trama de Vera Caspary. Anos mais tarde, Mamoulián foi demitido do set de ‘Cleópatra’. Ele fora contratado para fazer o épico sobre a rainha do Nilo com Joan Collins. Quando Liz Taylor substituiu Joan, com salário de US$ 1 milhão e o direito de vetar o realizador, ela escolheu Joseph L. Mankiewicz, que a dirigira em ‘De Repente, no Último Verão’. Foi o fim de Mamoulián, mas há um culto a ele.Mauro Brider e eu podemos não ser os oficiantes, mas, com certeza, o admiramos e respeitamos.

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