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Luiz Carlos Merten

17 Maio 2010 | 10h17

CANNES – Os três filmes citados no post anterior mostram o capitalismo em ação. O de Alejandro González Iñárritu, que vimnos hoje pela manhã, mostram o resultado dessa ação. Em ‘Biutiful’, as pessosas são resíduos de um sistema que as considera basicamente descartáveis. Saí do cinema meio em estado de choque e, de cara, encontrei Kleber Mendonça, que abominou o filme. Meuis amigos portugueses e franceses detestaram. Tudo isso me perturbou mais ainda, mas o filme continuou revirando dentro de mim. ‘Biutiful’ é entre, outras coisas, sobre pateernidade, um tema recorrente na seleção deste festival. Javier Bardem cuida sozinho dos filhos. É um sensitivo que se comunica com os mortos e ele próprio está morrendo, devorado pelo câncer de próstata. Javier passa meio filme mijando sangue. A ex-mulher é uma drogada que nunca desistiu dele, embora vá para a cama com seu irmão. E existe o mundo em volta – chineses que clonam grandes marcas para que senegaleses as vendam nas ruas de Barcelona. O chefe da Máfia chinesa tem um vínculo homossexual e Javier tem um amigo senegalês cuja mulher será arrimo de sua família, quando ele começa a desmoronar. Em seu primeiro filme sem o roteirista Guillermo Arriaga, Iñárritu não segue a narrativa coral que o fez famoso, mas propõe um cíuculo – o filme termina como começa, com as mesmas cenas (duas), vistas de ângulo diferente (ou apenas ouvida, a segunda, como som). O círculo, na verdade, é barroco e o filme cria um universo paralelo, no sentido de que esse realismo ‘espetacular’ que atrai o autor espanhol, é aquele que ninguém quer ver – em Barcelona ou aí em São Paulo. Sinceramente, gosto mais de ‘Another Year’, de  Mike Leigh, e do filme do Chade, mas se vocês me perguntarem agora quem leva a Palma de Ouro eu achjo que seria o Iñárritu. ‘Biutiful’ é um filme forte, de ‘festival’, e Javier Bardem nunca me pareceu melhor, embora a grande personagem seja a africana. Mamma África é a salação do mundo, segundo Iñárritu