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Cultura » Malick à sombra de Kubrick

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Luiz Carlos Merten

16 Maio 2011 | 09h13

CANNES – Imagino que vocês estejam loucos para saber de ‘A Árvore da Vida’. O novo longa de Terrence Malick passou agora de manhã. Foi a sessão mais concorrida, até agora. Cheguei cedo, 8h05 – o filme começou às 8h30 -, e mesmo  com a credencial branca, a top de linha, tive de me sentar na lateral, numa cadeirinha de apoio, porque a sala – o Grand Théâtre Lumière – já estava lotada. O silêncio, por assim dizer, foi religioso. No final, surpreendetemente, vaias. Os aplausos só vieram depois, e nem foram uma torrente. ‘The Three of Life’ começa com a uma citação do Livro de Jó. É a história de uma família. Pai, Brad Pitt, mãe, Jessica Chastain, e três filhos. Logo de cara um dos filhos morre e durante mais ou menos um terço da projeção, total de 2h18, acompanhamos o desespero da mãe, sua dificuldade para aceitar a perda e a revolta contra Deus. Não sei exatamente se Terrence Malick é um religioso, mas espiritualista – e panteista -, ele com certeza é. Jessica fala com Deus – ‘Where are you?’ – e Malick filma a natureza, buscando cfonexões entre o macro e o microuniverso. Sorry, mas ele está mnais de 40 anos atrasado. Stanley Kubrick fez isso antes no visionário ‘2001, Uma Odisseia no Espaço’. A segunda parte, ou movimento, mostra Brad Pitt como o pai repressor que quer preparar os filhos para a vida e os trata com dureza. Pai e mãe brigam no seu inconsciente, diz o mais revoltado dos garotos, que ao crescer vira Sean Penn (que estranha mutação genética fê-lo ser o filho de Brad Pitt, eu não sei). Penn passa pelo filme angustiado. Menino, repete que não quer ser bom porque Deus não o é. ‘A Árvore da Vida’ é uma experiência e tanto. Emocional, existencial. Não sereia exagero definir o filme como dsinfonia filosófica (metafísica?), mas Malick é consciente demais de que está fazendo ‘arte’. Não vou dizer que o filme me tenha aborrecido, mas é tudo muito solene, sacralizado (inclusive, pela música) e, no limite, eu pensava o tempo todo em Kubrick. O Carlos Eduardo, de Londrina, acha que o festival finalmente começou. Teremos agora os pesos pesados – Almodóvar, Lars Von Trier etc. Para mim começou ontem com ‘O Artista’, de MIchel Hazanavicius. Depois de um grande filme popular, um grande filme artístico. Tenho de admitir, para mim mesmo, que, apesar da árvore, encontrei mais vida em ‘O Artista’.