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Luiz Carlos Merten

14 Setembro 2010 | 06h40

Não me lembrava, ou melhor, não sabia que ‘Curva do Destino’, o cultuado ‘Detour’, de Edgar G. Ulmer, havia sido lançado em DVD pela Aurora. Recebi ontem o DVD da Videofilmes, fui mostrar ao Antônio Gonçalves Filho e foi ele quem me disse. Engraçado, não recebi o da Aurora – e o pessoal sempre me mandava seus lançamentos –, nem me lembro de ter visto em lojas e locadoras para comprar. Enfim, vi ontem à noite o filme do austríaco Ulmer. Insólito é apelido. ‘Detour’ ostenta a fama de ser o melhor filme B de todos os tempos e muita gente o coloca, na tradição noir, no mesmo patamar de ‘Mortalmente Perigosa’ (Gun Crazy), de Joseph Lewis, e ‘Laura’, de Otto Preminger. Tenho cá minhas dúvidas de que ‘Detour’ seja um noir típico, mas pensei muito em meu amigo Jefferson Barros, depois de vê-lo. Jefferson amava Joseph Losey, e ‘Eva’, tendo identificado na obra norte-americana de outro europeu – o Edward Ludwig de ‘O Rastro da Bruxa Vermelha’ – as origens claustrofóbicas da doentia relação de Tyvian e Eva, Stanley Baker e Jeanne Moreau, na obra-prima de Losey. Não sei se Jefferson chegou a ver ‘Detour’. Ele era muito antenado na cinefilia francesa e o filme sempre foi cult na França, mas não era uma obra que circulasse por aqui, pelo menos nunca tinha visto. A capa do DVD põe ênfase na narrativa elíptica e nos flash-backs que se abrem como uma espiral, mas por mais criativa que seja a linguagem de ‘Detour’ – ou a forma como Ulmer enfrenta os desafios do B –, o que o filme ainda tem de perturbador, decorridos 65 anos (a minha idade), é a natureza da relação entre os personagens de Tom Neal e Ann Savage. Nunca houve perdedor mais patético – mais loser – na história do cinema. Por que só na do cinema? Na vida. Tom Neal matou a mulher e foi preso, estou falando da realidade, não da ficção. No filme, é um pianista que pega carona para encontrar a namorada em outra cidade. O motorista do carro morre e Neal, impulsivamente, assume suas roupas e cartões – sua identidade – e vira presa de Ann Savage, a quem também dá carona, e ela conhecia o morto e agora ameaça denunciá-lo à polícia. Neal vira escravo, inclusive sexual, de Ann. Não me lembro de mulher mais fatal, ou predadora. E a selvagem Ann não é bonita, particularmente bonita, nem sexy, o que torna ainda mais bizarra a dependência de Neal. Confesso que estou chapado porque, ao mesmo tempo que tem coisas geniais, ‘Detour’ me pareceu doentio, desagradável e eu próprio me senti podre ao vibrar quando Neal, xiii! vou contar, acidentalmente estrangula sua carrasca no fio do telefone – uma cena, aliás, tão bem filmada (os cortes e movimentos de câmera) que poderia ser equiparada, com algum exagero, é claro, à escadaria de Eisenstein e à ducha de Hitchcock. Acrescento que muito dessa perplexidade vem do fato de que, apesar de todo o brilho da mise-en-scène, ‘Detour’ tem muita coisa vulgar e até pobre (o diálogo, que revela a origem B). Fui olhar no ‘Dicionário de Cinema’ e Jean Tulard nem situa ‘Curva do Destino’ entre os melhores filmes de Ulmer. Ele prefere, acho que com razão – teria de rever os dois –, ‘Madrugada da Traição’, o western com Arthur Kennedy e Betta St. John. Mas ‘Detour’ é imperdível. Embora seja ‘de estrada’, o filme se passa em uma meia-dúzia de cenários fechados. Ulmer estudou arquitetura e filosofia, informa Tulard. Sua fama de ‘maldito’ é facilmente explicável, mas não só pelo estilo, as elipses, os flash-backs, a espiral. A servidão humana deixa para trás a de Somerset Maugham, que teve várias versões na tela. Acompanha o DVD, como extra, um perfil de Ulmer na intimidade. Fiquei curioso. O cara devia ser meio doido. Afinal, n’O Gato Preto já tinha colocado Boris Karlof e Bela Lugosi naquela partida de xadrez.

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