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Cultura » Mal dos trópicos ou Enquanto a noite não chega

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Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2006 | 08h38

No começo da retomada, havia uma porção de filmes ruins que meu então editor (e futuro cineasta) Evaldo Mocarzel apoiava por fé no cinema brasileiro. Eu também tinha, mas isso não me impedia de achar certos filmes horrorosos e ele brigava comigo por isso. Quando gostei de Anahy de las Missiones e, depois, de Netto Perde Sua Alma, meus amigos disseram que era porque são filmes gaúchos. Conto isso porque talvez me acusem de novo de gauchice, mas em Cannes, como jurado da Caméra d’Or, gostei demais de Hamaca Paraguaya. o filme de Paz Encina passa hoje na Mostra, às 16 horas, no Cine Bombril. É de um rigor que não chega a ser absoluto porque a diretora, que filma o tempo todo à distância, às vezes aproxima a câmera ou faz um plano de detalhe que enfraquecem o conceito. São só esses dois velhos falando sobre o destino do filho que foi para a guerra. Estão sentados lá no fundo, como num palco. Existe uma massa de árvores, o latido de um cachorro e eles falam, falam. Alguém (você, mas espero que não) poderá achar chato, mas, para mim, pelo menos, aquilo produziu uma forte emoção. Talvez seja a gauchice – o filme da Paz me lembrou Enquanto a Noite não Chega, livro do escritor gaúcho Josué Guimarães, um lorde das letras do Rio Grande do Sul, sobre outro casal de velhos que espera o filho, que também foi para a guerra. Em Cannes, quebrei o protocolo do júri e fui até a diretora perguntar se ela conhecia o livro. Paz, um tanto surpresa, me vdisse que nunca tinha ouvido falar. O mais curioso é que, quando integrei o júri de projetos (a partir dos roteiros) da Petrobrás, havia um que meus colegas imediatamente descartaram. Era uma adaptação de Enquanto a Noite não Chega. Disseram que aquilo não dava filme, que ninguém ia querer ver um casal de velhos conversando. Bem – eu queria e vi no filme da Paz Encina. Não é, como se diz, um filme de mercado, como Honor de Cavalleria também não é. Mas são filmes autorais que a mim dizem muita coisa. Jean-Louis Vialard, o fotógrafo de Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasechakul, achou o tratamento da imagem, e do som, muito sofisticado. O controle da luz que cai, em tempo aparentemente real, é coisa difícil de fazer, se você não usa efeitos. É curioso, mas Alberto Serra, o diretor de Honor de Cavalleria, me disse que adorou o filme da Paz. Acrescentou que, em Cannes, recebeu elogios pelas cenas noturnas do filme dele (e até resolveu que o próximo, outro fragmento, como Honor, que é um fragmento do Quixote, vai ser rodado todo à noite – me disse qual é o tema, muito original, mas me pediu que não revelasse, ainda). São dois filmes com tanto em comum, principalmente no grau de exigência em relação ao espectador. Se são ou não de mercado, sinto muito… Cada filme tem a sua cara. Há os de mercado, de que gosto, e os que não são de mercado, e de que também gosto (e há os que não gosto de ambos os lados). Sobre Honor, que passa hoje às 18 horas no Centro Cultural São Paulo, Serra me disse que ama Kiarostami e Sokúrov, mas suas maiores influências, neste caso, foram o vento, no Quixote de Welles, e o ruído das armaduras, em Lancelot du Lac, do Bresson. Uma terceira influência foi o Apichatpong, não durante a rodagem, mas durante a montagem, quando ele descobriu Mal dos Trópicos. Muito interessante.