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Mais uma, preciso mais uma vez

Luiz Carlos Merten

08 Março 2009 | 12h19

Tirei ontem um dia sabático, mas não foi intencional. Deixei para postar alguma coisa à noite, ao voltar para casa, e quem disse que o raio do computador funcionou? Foi ele que fez forfait. Enfim, fui (re)ver ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’ na sessão das 14h10 do Arteplex. Sala lotada, filas enormes nas sessões seguintes. Havia brigado com meu editor – falamos tanto de ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’ no Oscar que ele achou que o filme já estava contemplado e era melhor dar espaço para as outras estréias de sexta. O problema, e me parece um problema, é que falamos genericamente sobre o filme de Danny Boyle e o significado de sua vitória – na engenharia de aproximação de Hollywood e Bollywood –, mas não fizemos crítica. Estou colocando no plural. Eu não fiz – presumo que meu colega Luiz Zanin Oricchio também não tenha feito. Até repercuti aqui no blog. Inácio Araújo e não sei mais quem na ‘Folha’ caíram matando em ‘Slumdog Millionaire’. Inácio deu péssimo de cotação para o filme. Bem – quero dizer que já gostava do filme, e gostei ainda mais na revisão. Na primeira vez, havia a surpresa. Vocês devem se lembrar que, quando o filme ganhou o Globo de Ouro, eu perguntei para vocês que raio de filme era ‘Slumdog Millionaire’, pois nada sabia sobre ele. Nunca tinha ouvido falar. Em Paris, em janeiro, aproveitei um intervalo das sessões e entrevistas dos ‘Encontros do Cinema Francês’ e corri para ver o Danny Boyle. Era um diretor interessante no começo de sua carreira, depois foi perdendo o rumo. Reencontrou-se, que bom. Desde a primeira vez, gostei da superposição de estéticas, daquele verismo violento, à ‘Cidade de Deus’, que é invadido pelo musical à Bollywood, no desfecho. Meu lado kitsch é amplamente recompensado com a cena de dança, na estação. Tenho um orgasmo mental e saio levinho – saí de novo -, depois de uma forte descarga de emoção. Mas foi ontem que o filme me apanhou. A história do favelado que sai da m… e vira milionário, a afirmação do amor, tudo isso é interessante. Encontrei o dramaturgo e jornalista Mário Viana, tomamos um café e ele, na saída, me disse que tinha gostado de muitas coisas. Disse que o filme era ‘uma historinha de amor’. Não disse pejorativamente e eu não contestei (até por isso), mas é mais, pelo menos para mim. Desde a primeira vez que vi ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’, eu sentia que o que me tocava nessa história era outra coisa. Um dos filmes faróis da minha vida é ‘Dois Destinos’ (Cronaca Familiare), de Valerio Zurlini. Sou muito atraído por tragédias familiares, por esses relatos de irmãos cujo vínculo é feito de amor e ódio, de atração e repulsa. Pois o que mais me toca no filme de Danny Boyle é a relação dos irmãos e o grande personagem, para mim, não é Jamal, o protagonista, mas Salim, seu irmão criminoso. Dois destinos, mas também ‘Rocco e Seus Irmãos’, Rocco e Simone – e Nádia, nesta cena admirável em que Salim, investido como ‘homem’, de arma em punho, expulsa o irmão menino do quarto para ter sua noite com Látika. Chorei feito bebê, não tenho vergonha nenhuma de dizer. E Salim é um personagem maravilhoso. Durante todo o tempo, ele é o carrasco do irmão, mas, no limite, é sempre Salim quem o salva e empurrra para a frente, incluindo o desfecho, com aquele acerto de contas no mundo do crime. Fiquei tão emocionado, ontem, com ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’, que já decidi. Preciso ver o filme logo pela terceira vez, para ver se formo uma opinião mais ‘racional’.