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Mais um que se vai, Karl Malden

Luiz Carlos Merten

01 Julho 2009 | 18h56

Morreu Karl Malden, aos 97 anos, de causas naturais. Pelamor de Deus! Mas é um tal de já vai que não acaba mais… Sempre tive implicância com ele porque tinha aquela espécie de batata presa na ponta do nariz. Era um ator excessivo, característico do ‘método’, e Kazan, de quem foi aluno no Actor’s Studio, com Lee Strasberg, gostava de utilizá-lo sempre numa histeria imensa, em filmes como ‘O Justiceiro’, ‘Uma Rua Chamada Pecado’ – que lhe deu o Oscar de coadjuvante -, ‘Sindicato de Ladrões’ e ‘Baby Doll’. Mas Karl Malden não foi ator só de Kazan. Trabalhou com muitos outros grandes diretores. Preminger (‘Passos na Noite’), Henry King (‘O Pistoleiro’), King Vidor (‘Fúria do Desejo’/Ruby Gentry, um dos filmes-faróis da minha vida), Delmer Daves (‘A Árvore dos Enforcados’), Marlon Brando (‘A Face Oculta’), John Frankenheimer (‘O Homem de Alcatraz’), John Ford (‘Crepúsculo de Uma Raça’), Richard Quine (‘Hotel de Luxo’), Franklin Schaffner (‘Patton, Rebelde ou Herói?’). Não me lembro de nenhum filme em que Karl Malden tenha sido protagonista, mas como coadjuvante ele muitas vezes roubou a cena. E todos esses que citei são filmes impressionantes, até, ou principalmente, os de Kazan, com todo o excesso que possam ter. Só filmes bons, e de um perfil nada convencional. Mesmo ‘Hotel de Luxo’, adaptado do best seller de Arthur Hailey, era muito interessante como amostragem do capitalismo em ação, concentrado no tal hotel. Como curiosidade, porque nunca vi o filme, acho que vale citar também sua única experiência como diretor, ‘Time Limit’, de 1957. Não tenho certeza de como o filme se chamou no Brasil, mas na América Latina de língua espanhola era ‘Lábios Selados’. Sei porque ‘quase’ assisti ao filme do Malden em Montevidéu, certa vez. Richard Widmark fazia o protagonista e ‘Time Limit’ é muito citado por sua direção imaginativa, mas a reputação, apesar disso, não é boa. Como seu mestre Kazan, que colaborou com o macarthismo, Karl Malden conseguiu fazer, após a derrocada do famigerado McCarthy, um filme de tribunal impregnado do seu espírito, sobre militar levado a corte marcial, acusado de haver colaborado com os comunistas durante a Guerra da Coréia. Não resisto a fazer aqui uma brincadeira final. Anti-comunista de carteirinha, Karl Malden não entendeu ou deve ter se arrependido de fazer o filme de Quine. Numa folha corrida de bons serviços prestados ao capitalismo, não ficava bem um filme como aquele. A prostituta, o ladrão, o especulador, os trabalhadores explorados. E, no meio dessa gente, Karl Malden, truculento, como sempre.

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