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Mais um ano

Luiz Carlos Merten

02 Setembro 2014 | 09h30

Lamentei muito não ter estado em São Paulo para a master class de Jia Zhang-ke. Foi no mês passado. Agosto está ficando um mês impossível. Tem o Festival de Gramado, tradicional, mas agora ele bate com o Festival Judaico e o Mundo Árabe. E, neste ano, também com a retrospectiva de Jia e sua master class. Haja espaço no impresso para tantos eventos. E nem se me metamorfoseasse em cópias, como Michael Keaton naquela comédia medonha que foi reprisada outro dia na TV, conseguiria dar conta de tudo. Jia é o centro (o tema? O homenageado?) de um documentário de Walter Salles que vai passar na Mostra. Tenho tido o privilégio de entrevistá-lo algumas vezes, mas sempre com intérprete que traduz do mandarim, e esses encontros ficam meio emperrados. Soube, de qualquer maneira, que, no Rio, numa conversa informal, Jia comentou sua participação, como jurado, no recente Festival de Cannes. Terminou por admitir que foi derrotado. Seu candidato à Palma era o filme de Naomi Kawase, Still the Water. Era o meu, também. Achei que ia levar. Afinal, um grande filme dirigido por uma mulher, e no ano em que outra mulher, Jane Campion, presidia o júri. Temo que, no fundo, tenha sido esse o problema. Isso agora não tem nada a ver com Jia Zhazng-ke, é uma viagem minha. Jane Campion é, em toda a história do Festival de Cannes, a única diretora que venceu a Palma (com O Piano). Posso estar fazendo um retrato meio preconceituoso dela, mas talvez tenha querido que as coisas permanecessem assim. Kawase não ganhou nada de um júri que meio que loteou os prêmios. Só o júri de Steven Spielberg, no ano passado, teve coragem de bancar a superpremiação de Abdellatif Kechiche com La Vie d’Adèle, Azul É a Cor Mais Quente. Por que tergiverso sobre isso? Cahiers du Cinema, na edição de junho, que chegou às bancas de São Paulo, lamenta que este ano, embora com muitos bons filmes, a seleção de Cannes não tivesse um filme impacto como A Árvore da Vida, de Terrence Malick, ou Amor, de Michael Haneke. A revista não coloca no mesmo plano o Kechiche, que, para mim, é melhor que os dois juntos e certamente ignora a Kawase, cujo filme tem uma árvore (da vida) que me fascinou muito mais que a de Malick. As publicações de língua inglesa, tipo Cinemascope e Film Comment, caem matando na seleção e premiação de Cannes, mas por outros motivos. A seleção é muito criticada por trazer sempre os mesmos autores na disputa da Palma de Ouro. O delegado geral Thiérry Frémaux desculpa-se que os ‘grandes’ (Federico Fellini, Michelangelo Antonioni etc) sempre tiveram, cadeira cativa na Croisette e os anglófonos não perdoam. Quem decidiu que Mike Leigh, Ken Loach e os irmãos Dardenne são grandes? Loach, eu banco e os Dardenne, apesar de um certo desconforto depois que integrei o júri deles na Caméra d’Or – não tinham a mínima sensibilidade para o cinema íbero-americano, o que muito me irritou; deixamos de premiar Albert Serra, m…, também. Mas com Mike Leigh não tenho paciência, e não é de hoje. No passado, impressionei-me com seu método de criar o roteiro em parceria com os atores, mas revendo outro dia na TV paga Segredos e Mentiras, tive a maior vontade de cassar a Palma de Ouro que o filme ganhou. Em Cannes, este ano, embora credenciado para fazer as entrevistas por Mr. Turner – sobre o pintor -, entrei no maior bate-boca com a assessoria que cuidava do filme e certamente escandalizei o attaché ao dizer que enfiasse o filme onde quisesse, porque meu interesse era jornalístico e o filme era uma m… mesmo. Tudo isso porque está em cartaz Mais Um Ano, um Mike Leigh de quatro, cinco anos atrás. Mike Leigh e sua trupe. É (era) o quarto filme dele com Jim Broadbent, o sexto com Lesley Manville; o segundo com Imelda Staunton (e o terceiro que Jim e Imelda fizeram juntos).  Esses números teriam de ser atualizados porque Mike Leigh seguiu trabalhando com todos eles, e sempre no mesmo método. O grupo ensaia, desenvolve os personagens e os diálogos, o roteiro é elaborado a partir daí e, nas filmagens, o diretor deixa o roteiro de lado, voltando a ensaiar cada cena com sua equipe (atores e técnicos). Há 20 anos isso me impressionava, hoje acho insuportável a visão caricatural que Mike Leigh tem dos ingleses e tanto faz que sejam as famílias de Vera Drake (horroroso) e Mais Um Ano ou o paisagista de mais de um século atrás. Oh, sim, cada um desses filmes sempre tem uma cena bacana, mas que não vale o sacrifício. Passo (o Mike Leigh). E volto ao começo. Quem traz a Kawase ao Brasil – o Festival do Rio ou a Mostra de São Paulo? A temporada dos grandes festivais brasileiros está começando. O Rio divulga hoje a Première Brasil. O festival também vai fazer uma grande retrospectiva do cinema mexicano, com direito a Fernando de Fuentes e um de meus filmes cults, Vamonos com Pancho Villa. A Mostra terá retrospectiva de Pedro Almodóvar, mas não o próprio (parece). John Boorman, que seria jurado em São Paulo, teve um acidente e talvez também não venha mais, mas a programação terá Queen and Country, que prossegue com as memórias do diretor, iniciadas com Esperança e Glória. E a Kawase, o filme, pelo menos? No Rio ou em São Paulo? Espero que Still the Water entre, para ser um dos meus melhores do ano. Neste ou no próximo.