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Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2007 | 11h28

Volto a Paulo Perdigão. Vou me dar ao trabalho de copiar o último parágrafo da crítica dele sobre Um Lugar ao Sol, um pouco como homenagem ao próprio PP, mas também como presente de início de ano para vocês. O texto, com o título de Um Lugar ao Sol para Cinéfilos, é de 1986, 11 anos após a morte do cineasta, em 1975. Olhem que primor…
‘Toda a ênfase dramática incide sobre a perspectiva romântica. Basta ver a célebre cena da festa na casa dos Eastman, quando Liz Taylor e Montgomery Clift trocam os mais longos e próximos beijos já mostrados no cinema, numa sucessão de ‘big close ups’ com a cadência de uma sonata. O termo sonata é empregado deliberadamente por Stevens, pois, neste filme, ele buscou a afinidade que existe entre o cinema e a música de câmara. Ficaram, nas antologias, o uso dramático dos efeitos de som e a montagem em extensas fusões que conferem à narrativa uma atmosfera de onirismo e irrealidade, própria para um dos mais densos poemas de amor que Hollywood produziu. Falando deste filme, Stevens disse ter agido como compositor de sons e imagens, explicando ter-se orientado por uma escala musical – as imagens soam como um piano; há um momento para o pianíssimo, outro para o bravo.’
Não é demais? O mais curioso é que, relendo este texto, fiz uma ponte com o Sonata de Outono, que revi outro dia, em DVD. Nunca achei que fosse um dos maiores filmes do Bergman, mas é. E a montagem do Bergman, mesmo sem as fusões do Stevens, também obedece a uma escala musical, é verdade que com outro objetivo. Stevens criar um poema de amor. Bergman filmou o ódio de uma mãe pela filha. A pianista Ingrid Bergman, sem nenhuma sensibilidade, humilha Liv Ullman, que acabara de tocar apenas razoavelmente a peça que ela executa com brilho e a alma que não tem na relação familiar. Filmaço!