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Cultura » Mais Mostra! O Cinema Político Italiano

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Luiz Carlos Merten

17 Outubro 2006 | 16h44

Mais informações sobre filmes da Mostra que estarão em cartaz no primeiro fim de semana do evento, agora na retrospectiva do cinema político italiano.
INVESTIGAÇÃO SOBRE UM CIDADÃO ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA e A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO – Os dois filmes que esculpiram a fama de Elio Petri como grande autor político, embora eu prefira O Assassino, o primeiro longa que ele dirigiu, em 1961, e Condenado pela Máfia, com o Volontè, cinco anos mais tarde. Investigação ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro; A Classe Operária dividiu a Palma de Ouro com O Caso Mattei, que também está na retrospectiva. A história do policial que abusa do poder e mata a amante só para provar que ficará impune e a do operário que adquire consciência de classe colocam temas decisivos. O que os críticos discutiam, na época, por volta de 1970, é que Petri, como Damiano Damiani e Giuliano Montaldo, usava formas de ficção para discutir os indivíduos no poder, mas não o próprio poder e, portanto, era um autor reformista, não revolucionário.
UN BORGHESE PICCOLO PICCOLO – Mario Monicelli traça o retrato ‘pirandelliano’ de um ‘pequeno burguês’ decepcionado com a perda de suas (também pequenas) esperanças.
SACCO E VANZETTI – A história dos dois anarquistas italianos executados nos EUA sob a suspeita de um crime que não cometeram virou marco da denúncia da xenofobia americana, com direito a canção de protesto de Joan Baez na trilha. Apesar do prestígio que garantiu ao diretor Giuliano Montaldo, o filme é inferior a outros que ele fez antes – a comédia Vigarice à Italiana e o poderoso (se a memória não estiver me falhando) Deus Está Conosco, drama de guerra de uma força que evoca Glória Feita de Sangue, de Kubrick, ou King and Country, do Losey.
ESTE CRIME CHAMADO JUSTIÇA e VENHA DORMIR LÁ EM CASA – Os filmes mais explicitamente políticos de Dino Risi, o Antonioni da comédia italiana, tratam de temas importantes, mas só doido para achar que algum deles possa ser melhor do que Aquele Que Sabe Viver (Il Sorpasso), Os Monstros e o maravilhoso L’Ombrellone, lançado no Brasil como Férias à Italiana.
SÓ RESTA ESQUECER – O único filme do Damiano Damiani na retrospectiva discute o sistema penitenciário. Já que era para ser só um, o diretor estaria melhor representado por Confissões de Um Comissário de Polícia a Um Procurador da República, também com Franco Nero, mas eu gostaria muito de rever Gringo (Quien Sabe?), um spaghetti western revolucionário com Volontè e o Lou Castel.
DE PUNHOS CERRADOS – Falou em Lou Castel e olhaí ele no longa de estréia do Marco Bellocchio. Chama-se I Pugni in Tasca, no original, e você não tem idéia do que era assistir a este filme em 1965, aos 20 anos. Bellocchio, como Godard em A Chinesa, antecipou Maio de 68. Só que ele segue uma vertente viscontiana, misturando Verdi e o melodrama para contestar a autoridade familiar. Incesto, eutanásia, De Punhos Cerrados tem de tudo. Na época, provocou escândalo por mostrar que a corrupção não é só aquilo que você lê no jornal, mas pode muito bem estar no sangue. Ó céus! Bellocchio fez depois outros filmes que provocaram polêmica – a Nossa Senhora que fuma em Nel Nome Del Padre; o fellatio de Maruschka Detmers em Diabo no Corpo, que foi idéia do psicanalista Massimo Fraggioli, com quem Bellocchio foi fazer terapia e o cara virou co-diretor dos filmes dele. Com todo respeito, o que tem de psicanalista pirado…
PAI PATRÃO – Edmar Pereira, o grande crítico do Jornal da Tarde, dizia que este era o filme da vida dele. Vencedor da Palma de Ouro de 1977, baseia-se no livro autobiográfico de Gavino Ledda, pastor sardo que precisou desafiar a autoridade familiar (do pai) para virar o grande escritor em que se transformou. O filme é poderoso, mas se é para privilegiar a política, a retrospectiva, que exibe vários filmes dos irmãos Taviani, deixa de apresentar o mais político de todos – Allonsanfan, de 1974, com Marcello Mastroianni.
LE MANI SULLA CITTÀ – Pode-se gostar de Elio Petri e Damiano Damiani, mas o cinema documentado de Francesco Rosi, os filmes-dossiê que ele montou com rigor de documentarista para construir suas ficções talvez seja o ápice do cinema político italiano. Em 1963, Rosi fez este filme sobre a especulação imobiliária em Nápoles que ganhou o Leão de Ouro em Veneza, derrotando Trinta Anos Esta Noite (Le Feu Follet), do Malle, e As Aventuras de Tom Jones, de Tony Richardson. Poucos filmes são tão duros com o mundo dos negócios, mas se o diretor refizesse hoje ‘as mãos no mundo globalizado’, os podres seriam muito mais fedidos.
PRIMA DELLA RIVOLUZIONE – Não sou muito fã da livre adaptação que Bertolucci fez de Stendhal (A Cartuxa de Parma), mas o filme virou cult e, no geral, eu gosto muito do autor.
BANDITI A ORGOSOLO – Vittorio de Seta virou um personagem estranho do cinema italiano nos anos 60 e 70. Está na ativa até hoje (mostrou Lettere dal Sahara no recente Festival de Veneza), mas se você for procurar nos dicionários de cinema vai encontrar os títulos dos filmes dele no original, porque, salvo engano, nunca tiveram lançamento comercial no Brasil. Banditi foi o primeiro longa do De Seta, contemporâneo de O Bandido Giuliano, de Francesco Rosi. A história é a desse pastor siciliano que a miséria e as circunstâncias transformam em bandido. Se não envelheceu (tomara que não), é um filmaço.
O CASO MATTEI – O filme do Rosi que dividiu a Palma de Ouro com A Classe Operária Vai ao Paraíso investiga a vida e a morte suspeita do poderoso Enrico Mattei, que defendia uma política nacionalista para o petróleo, na Itália, desafiando o poder das ‘irmãs’ (as Majors do ouro negro). Volontè é excepcional no papel.
GIORDANO BRUNO – Depois de Sacco e Vanzetti, o diretor Giuliano Montaldo voltou-se para o filósofo que foi queimado pela Inquisição em outro libelo humanista contra a intolerância. Esteticamente, o filme é mais refinado que o anterior, com uma utilização da cor e da luz que remete à pintura de Mantegna.
OS SUBVERSIVOS e SOB O SIGNO DO ESCORPIÃO – Mais dois filmes dos irmãos Taviani, um tratando da divisão da esquerda pré-revolucionária e outro da euforia pós-revolucionária. Preste atenção no ator Giulio Brogi, que foi o grande nome do cinema político italiano antes da explosão de Gian-Maria Volontè.
BANDIDOS DE MILÃO – Se a memória não for traiçoeira (e às vezes é), o thriller em que Carlo Lizzani reconstitui um famoso caso da crônica policial italiana da época é muito bom. Em setembro de 1967, um grupo assaltou um banco e Nápoles e foi perseguido pela polícia. O filme, feito logo após o fato, passava uma sensação de urgência para falar da criminalidade como reação a um sistema baseado na corrupção e na desigualdade. Volontè faz o líder do grupo, antecipando seus personagens em filmes de Petri e Rosi. Lizzani é um diretor que nunca mereceu muito apreço dos críticos, mas eu gostava de sua adaptação de Vasco Pratolini, Os Amantes de Florença, e achei poderoso Caro Gorbachev, que ele fez no fim dos anos 80, em forma de carta aberta ao então dirigente soviético, no qual a viúva de Nikolai Bukharin pede a reabilitação do marido, o predileto do Partido, segundo Lenin, e que foi fuzilado por Stalin.