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Luiz Carlos Merten

30 Julho 2009 | 14h00

Sempre que escrevo um post sobre William Wyler e lembro sua birra com a nouvelle vague me lembro do Calvero, Paulo Fontoura Gastal, em Porto Alegre. Quando ‘O Colecionador’ estreou, acho que em 1966 – o ano creditado da produção é 65 -, Gastal viu na forma de ‘The Collector’, que se baseia no livro de John Fowles, um tapa na cara da geração nova onda. Wyler, da velha onda, mostrava que se podia fazer um filme jovem, cheio de firulas e modismos, mantendo uma estrutura clássica, com respeito ao psicologismo dos personagens. Gastal batia e o mais nouvelle vague dos críticos gaúchos da época, Jefferson Barros, se apaixonava por ‘O Colecionador’. Nunca mais revi o filme. Pode até ser que tenha saído em DVD no Brasil, mas nunca o encontrei e olhem que não resisto a dar uma olhada nas boas lojas do ramo. Terence Stamp, que já havia feito ‘Billy Budd’, vivendo para Peter Ustinov o personagem mítico de Herman Melville, filmou depois com Fellini (o episódio de ‘Três Histórias Extraordinárias’, adaptadas de Poe) e Pasolini (‘Teorema’). Stamp fez também o ‘neowestern’, como se dizia, ‘Duas Pátrias para Um Bandido’, de Silvio Narizzano, na pele do pistoleiro chamado de ‘Blue’. Narizzano! Este eu tirei do baú. Jean Tulard diz no ‘Dicionário de Cinema’ que ele merece mais atenção do que lhe foi dispensada até agora. Amo outro filme do diretor, que ele fez antes. Em ‘Georgy, a Feiticeira’ (Georgy Girl), Lynn Redgrave, irmã de Vanessa e filha de Sir Michael, faz essa garota inglesa, pré- Swinging London, que se envolve com homem casado e ele não quer romance, quer só uma amante. Charlotte Rampling, num de seus primeiros papeis, senão o primeiro, faz a colega de quarto, mas o que me encasnta no filme é uma cena, em particular. Alan Bates, o jovem Alan Bates – maravilhoso! -, levanta-se e faz um passeio solitário pela cidade, antes de se casar. Como nunca mais revi o filme, não sei se fui lhe acrescentando coisas na memória, mas ele passa num parque e tem uma cena no balanço, como se avaliasse ali a instabilidade de sua vida e o grande passo que está dando. É incrível como certas coisas voltam. assim como ‘Georgy Girl’ está encravado no meu imaginário, existe outro filme inglês da época, de outro diretor ‘meio’ free cinema – mas que nunca é citado como importante no movimento -, Desmond Davis. O filme é ‘the Girl with Green Eyes’, que passiou no Brasil como ‘Um Amor sem Esperança’. Rita Tushingham faz a vendedora do interior que vai morar em Dublim, onde se envolve com Peter Finch numa relação que, como indica o título brasileiro, não tem futuro. Desmond Davis foi discípulo de Lindsay Anderson, Rita foi a atriz de ‘Um Gosto de Mel’, que Tony Richardson adaptou da peça de Shelagh Delaney. Não sei por que, mas houve um hiato na carreira de Davis. Ele ficou mais de dez anos sem filmar, entre o fim dos 60 e o começo dos 80. voltou com ‘Fúria de Titãs’, aventura mitológica com efeitos de Ray Harryhausen. Não era ‘Os Filhos do Trovão’, de Duccio Tessari, de 1961 – uma obra-prima! -, mas tinha seu charme. Laurence Olivier encarnava Zeus e Harry Hamlin era seu filho mortal, Perseus, que enfrentava uma série de desafios na tentativa de se tornar imortal. ‘Fúria de Titãs’ tem uma narrativa episódica e não tem muito vigor de mise-en-scène (isso ‘Um Amor sem esperança’ também não tinha), mas partes do relato são ótimas. O herói tentando domar Pégasus, driblando a Medusa etc. O elenco de apoio tinha Burgess Meredith, Maggie Smith, Claire Bloom e Ursula Andress. Se passasse agora na Sessão da Tarde, pararia tudo para ver.

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