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Mais Malle, o ‘meu’

Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2009 | 15h31

Tenho uma fascinação muito grande por Louis Malle, que consegui entrevistar por telefone, em novembro de 1994, um ano antes de ele morrer 0- em novembro de 1995 -, quando ‘tio Vânia em Nova York’ estava prestes a estrear no Brasil. Ele me anunciou que trabalhava num projeto para filmar a vida de Marlene Dietrich, com Uma Thurman – sabe-se lá que filme teria resultado. Um dia na vida de Marlene, durante a filmagem de uma suas obras míticas – ‘A Imperatriz Galante’ (The Scarlet Empress), de Josef von Sternberg, de 1934, que, por sinal, está saindo em DVD. Malle fez sucesso como cineasta de escândalo e, embora precursor da nouvelle vague, nunca se identificou com o movimento e até se distanciou dele. Conscientemente, ou não, Malle pegou o ator emblemático da nouvelle vague e o escalou, against type, em ‘O Ladrão Aventureiro’, que foi um grande fracasso de público, mas é meu filme favorito, entre todos os que ele fez. Belmondo faz o sujeito que, na Paris da Belle Époque e, depois em Londres, não consegue controlar sua pulsão por roubar. O cara é um dândi, meio Arsène Lupin, e até onde sei o romance de Georges Darien em que Malle se baseou – celebrado por André Breton e pelos surrealistas em 1920 e depois reeditado somente em 1950 – influenciou a literatura de Maurice Leblanc. Comprei há vários anos o livro ‘Malle on Malle’, com a entrevista dado pelo cineasta a Philip French. Nunca havia lido. Como pretendia escrever hoje sobre Malle, ‘Viva Maria!’, peguei o livro e li partes no táxi, a caminho do jornal. Li agora um trecho sobre ‘O Ladrão Aventureiro’. Malle comenta com o crítico que nunca teve resenhas mais negativas, mas reconhece que ‘Le Voleur’, com ’30 Anos Esta Noite’, é seu filme mais pessoal. A adaptação de Drieu de la Ropchelle trata do suicídio como uma questão moral, mas a recusa do mundo pelo ladrão aventureiro o leva a outra espécie de suicídio, a viver emparedado, à margem de tudo e todos. Roubar vira um vício, fora do qual Georges Randal – é seu nome – não vê saída. Em 1968, avalia Malle, todo mundo era maoista e as pessoas esperavam filmes militantes. Além de ser de época, o desespero existencial do (anti)herói Belmondo estava na contracorrente das tendências daquele momento, daí, segundo ele, a recusa generalizada ao filme. Lembro-me que assisti a ‘Le Voleur’ num domingo à tarde. Não sei de vocês, mas o domingo já carrega, para mim, uma conotação pesada. A amargura do filme me deixou sem rumo. Até hoje, quando me lembro de ‘O Ladrão Aventureiro’ – e foi um filme que me marcou, o oposto do que promete o filme brasileiro –, o sentimento é de vazio. Taí um filme que gostaria de rever.

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