Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Mais Kazan, o de ‘Pânico nas Ruas’

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Mais Kazan, o de ‘Pânico nas Ruas’

Luiz Carlos Merten

16 Outubro 2009 | 14h22

Mauro Brider comenta o post sobre a Cinemateca Saraiva e conta que gosta de um filme de Elia Kazan pelo qual as pessoas, em geral, não têm muito apreço – ‘Pânico nas Ruas’. Azar delas, Mauro. O próprio Kazan tinha um carinho todo especial por este filme e, embora já tivesse recebido seu primeiro Oscar – por ‘A Luz É para Todos’ (Gentleman’s Agreement), em 1947 -, ele diz a Michel Ciment, no livro com a entrevista que lhe concedeu (‘Kazan on Kazan’), que ‘Panic in the Streets’ marca o verdadeiro início de sua carreira. ‘Pânico’ passa-se nas ruas e becos de New Orleans, onde uma dupla, formada por um médico e um policial, persegue outra dupla, essa de criminosos que não sabem que contraíram a peste bubônica e podem contaminar a cidade inteira. Kazan contou a Ciment que foi aqui que sua personalidade se manifestou pela primeira vez, com força, na tela. E ele conta, não tenho o livro à mão para citar literalmente, que se sentia escravo do roteiro em Hollywood. No caso de ‘Pânico nas Ruas’, ocorreu que o filme foi rodado em locações e ninguém no estúdio (a Fox) controlava rigidamente o trabalho. Kazan tinha um caminhão com os acessórios, no qual fez instalar uma máquina de escreveer, e toda manhã reescrevia as cenas com o roteirista – acho que era Richard Murphy -, acrescentando-lhes a riqueza e a veracidade que o fato de estar em Nova Órleãs lhe proporcionava. O médico é interpretado por Richard Widmark, que Kazan já conhecia do teatro, e o cineasta confessava que teve um prazer muito grande em dirigir o ator nas cenas com sua mulher da ficção, Barbara Bel Geddes. Os dois vivem se provocando, dizem o que sentem e pensam e nem por isso a relação fica envenenada. O médico é democrata, o policial é republicano e as tensões entre os dois fornecem a dimensão mais abertamente política do filme, mas é óbvio que a própria peste fornece uma ferramenta simbólica para que o autor penetre nos aspectos mais sórdidos da vida social. Kazan também já conhecia Jack Palance, que faz um dos fugitivos, do teatro, pois ele foi o stand by de Marlon Brando em ‘Um Bonde Chamado Desejo'(A Streetcar Named Desire), na Broadway. Kazan adaptou a peça de Tennessee Williams para o cinema e o filme virou ‘Uma Rua Chamada Pecado’ ao estrear no Brasil. Brando é um Deus, uma fiorça viva da natureza como Kowalski, mas qualquer pessoa que se interesse pela arte da representação tem de encarar a Blanche Dubois de Vivien Leigh como um marco da interpretação para cinema. O que é aquela mulher? Faz mais de 20 anos que assisti a ‘Pânico nas Ruas’ pela última vez. Lembro-me perfeitamernte porque ainda estava no ‘Diário do Sul’, em Porto Alegre, e tenho cerrteza de haver escrito um texto grande para o jornal (talvez esteja no livro com os meus escritos na imprensa gaúcha, não lembro). Só pelos filmes aqui citados já dá para ver que o cinema de Kazan trata sempre de emoções humanas que a organização – familiar ou política – tenta reprimir, mas elas sempre terminam por aflorar e quase sempre com graves, até trágicas, consequências. O outro filme que Mauro Brider citou, ‘Movidos pelo Ódio’, se baseia num best seller que o próprio autor havia escrito, com Kirk Douglas no papel de um alter ego do diretor, dividido entre a mulher (Deborah Kerr) e a amante (Faye Dunaway). Lembro-me de que ‘The Arrengement’, título original, tinha cenas maravilhosas – Douglas, no carro de luxo, soltando as mãos do volante para experimentar a vertigem da velocidade; Deborah, como a mulher insatisfeita, liberando a sexualidade ao tocar… O que era mesmo? Só me lembro que era um objeto bem fálico, na sacada do quarto, ou coisa que o valha. O problema de ‘Movidos pelo Ódio’ é que surgiu junto, pelo menos no Brasil, com um filme de Irvin Kershner – ‘O Amor É Tudo’ (Loving), com George Segal e a ‘kazaniana’ Eva Marie Saint – que parecia mais genuíno e sincero ao tratar de temas muito próximos aos do filme de Kazan. Grande Kershner! Há alguns anos ele veio ao Brasil, homenageado pelo Festival de Manaus. Flávia Guerra entrevistou-o no Amazonas. Agora já estou misturando as coisas. Gosto demais de Kazan, mas o Kershner dos anos 60/70, de filmes como ‘Sublime Loucura’, ‘O Magnífico Farsante’ e ‘O Amor É Tudo’ também mora no meu coração.