Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Mais Friedkin

Cultura

Luiz Carlos Merten

11 Junho 2007 | 09h47

Vou voltar ao Friedkin. Me deu curiosidade de saber como Viver e Morrer em Los Angeles, que o Aldir considera um filmaço, foi recebido ao ser lançado nos cinemas brasileiros, lá por meados dos anos 80. Encontrei só um texto sobre o filme na pasta do diretor. Na fase pré-informatização, o arquivo do Estado possuía pastas com recortes sobre Deus e o mundo. Esse material está sendo digitalizado, mas muita coisa ainda está nas pastas. São milhares e milhares. Adoro olhar este material. Faço por curiosidade, não por espírito de historiador. Enfim, na pasta de William Friedkin, Rubens Ewald Filho, comentando Viver e Morrer, vê no filme a prova de um grande blefe. Diz que o Oscar para Operação França foi injusto e Viver e Morrer apenas confirma que Friedkin foi uma invenção mal-sucedida da Academia de Hollywood. É curioso, mas Rubinho tem a mesma opinião de Leonard Maltin. Fui ver a cotação do filme no guia de filmes do americano e é baixíssima. Ele reclama que o filme não tem mocinho. William Petersen faz o agente que persegue falsário responsável pela morte de seu parceiro. O falsário é Willem Dafoe, que tem ligações nas altas e baixas rodas. O tira é boçal, arrogante, lixa-se para as leis e usa (e abusa) das mulheres. E se o filme for bom, como sustenta o Aldir, justamente por isso, por recusar o maniqueísmo quase sempre associado às narrativas de ação? Dei uma folheada geral na pasta do Friredkin e pude ler a indignação que causou Parceiros da Noite, definido como homofóbico, parcial e preconceituoso. Já disse que o filme, cuja nova versão foi lançada em Cannes este ano, virou xodó da crítica, que já redescobriu Friedkin há anos. Bug, repito, é muito forte. Sai em DVD? Parceiros da Noite vem para a Mostra ou para o Festival do Rio? Estamos aguardando, imagino que o Aldir e eu. O curioso é que o homófobo Friedkin é elogiado por seu pioneirsmo na mesma pasta, por ter feito, antes de Operação França, Os Rapazes da Banda. Como um cara que olha os gays com ‘respeito e compreensão’, como diz um crítico da época, pode ser esse monstro no filme seguinte? E se a natureza humana é que for assim? Gays, como heteros, são humanos. Um pode ser bonzinho, outro nem tanto. Sei lá – agora quem ficou com vontade de comprar (e rever) Viver e Morrer em Los Angeles fui eu.