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Luiz Carlos Merten

19 Março 2007 | 11h05

Voltei hoje à redação do Estado e a primeira coisa que me disse meu colega Bira (Ubiratan Brasil) foi que havia gostado muito de um filme do ‘teu querido’ (referia-se a mim). O querido, vejam a casualidade, é Richard Fleischer, sobre quem eu postei um texto no sábado, a propósito de Tora! Tora! Tora!, que havia visto na TV paga. Bira comprou um filme polêmico do Fleischer que saiu em DVD pela Magnus Opus. Estranha Compulsão é de 1959 e, naquele ano, ganhou o prêmio de interpretação masculina coletiva no Festival de Cannes. Foi o ano em que Orfeu do Carnaval, do Marcel Camus, ganhou a Palma de Ouro; Os Incompreendidos, de François Truffaut, recebeu o prêmio de direção; e Nazarín, de Luís Buñuel, o prêmio internacional. Cannes, em 59, foi o palco do lançamento (e consagração) da nouvelle vague – e Alain Resnais, figura um tanto marginal no movimento de renovação do cinema francês, ficou com o prestigiado prêmio da crítica, pela obra-prima Hiroshima, Meu Amor. Tirando o vencedor principal, portanto – que deve ter vencido pelo exotismo –, foi um ano de grandes filmes que fizeram história. Estranha Compulsão pertence à fase de Fleischer na Fox, quando o tycoon Darryl Zanuck o transformou no diretor ‘intelectual’ do estúdio. A história baseia-se no célebre caso de Leopold e Loeb que, em Chicago, nos anos 20, haviam praticado o chamado ‘crime perfeito’, só para provar a superioridade de sua inteligência. O caso já havia inspirado Alfred Hitchcock em Festim Diabólico, de 1948, e teria mais duas versões – Swoon, de Tom Kalin, de 1992, que enfatizava o elo homossexual na ligação da dupla, e Murder by Numbers, de Barbet Schroeder, de 2002, com Sandra Bullock (e Ryan Gosling e Michael Pitt como os assassinos). Apesar do entusiasmo do Bira, não creio que Estranha Compulsão seja um grande Fleischer. As atuações (Orson Welles, Dean Stockwell e Bradford Dillman) são boas, as cenas de tribunal viraram referências, mas há ali um artifício dramático que não me convence muito. Imagino que, em DVD, também exista um certo prejuízo da imagem, pois Estranha Compulsão foi feito para a tela larga, usando todo o esplendor do cinemascope – o que foi uma dupla ousadia de Fleischer, já que o filme, basicamente, se passa em interiores e foi fotografado em preto-e-branco. Acho que a maior importância de Estranha Compulsão, na carreira do diretor, que havia estudado medicina – e queria se especializar em pasiquiatria –, foi abrir, para ele, o mundo das mentes enfermas, ao qual ele voltou em pelos menos duas oportunidades, baseado em aterradoras histórias reais. O Homem Que Odiava as Mulheres (The Boston Strangler), baseado na história de Albert DeSalvo; e O Estrangulador de Rillington Place, com Richard Attenborough, que é um dos filmes mais opressivos que conheço. Ambos provocaram polêmica, porque Fleischer, em nenhum caso, condena os assassinos, mas tenta entender (e explicar para o público) o processo mental que os impulsionava ao crime. Se existe um vilão em O Homem Que Odiava as Mulheres, não é o assassino em série, interpretado por Tony Curtis – é o papel da vida dele –, mas o policial Henry Fonda, que pressiona DeSalvo a confessar e provoca a fissura psicológica que o lança, como ocorreu na vida, num processo catatônico. O ano era 1968, o mundo estava explodindo e Fleischer preferiu ir contra a instituição, não o doente, mesmo que seja um assassino. São – todos, Estranha Compulsão, O Homem Que Odiava as Mulheres e O Estrangulador – filmes contra a a pena de morte, numa época em que os liberais de Hollywood estavam mobilizados contra o assunto. Robert Wise fez Quero Viver!, pouco antes de Estranha Compulsão; e Richard Brooks, À Sangue-Frio, tambému um ano antes de The Boston Strangler. Para encerrar – intitulei o post Mais Fleischer e só agora me dou conta de que soa como Max Fleischer e o animador de Betty Boop foi o pai de Richard.