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Cultura » Mais ‘Desejo e Reparação’

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Luiz Carlos Merten

21 Outubro 2007 | 13h52

Estou prestes a fazer uma loucura, saindo da redação do Estado, em plena Mostra, para passar o restante do meu domingo no Sesc Belenzinho, assistindo ao Théâtre du Soleil, um espetáculo de 7 horas, com direito a almoço (cozinhado pela trupe de Ariane Mnouchkine). Não estou tendo tempo de postar muita coisa, mas fui ler os comentários e encontrei o do Saymon sobre o que escrevi sobre ‘Desejo e Reparação’. Volto a falar no filme amanhã, no ‘Caderno 2’ e agora não tenho muitas dúvidas de que vá continuar gostando na 2ª e na 3ª revisões. Saymon cita o Zanin, meu colega do ‘Estado’, Luiz Zanin Oricchio, que viu o filme em Veneza e achou que era diluição. Como não li o livro, não posso opinar e agora me coloquei numa sinuca – acho que nem vou ler. Se é verdade que Joe Wright pode ter diluído Ian McEwan, a verdade é que não vou encontrar no filme a reflexão – muito interessante para mim – sobre o cinema que ele colocou em seu filme. O melhor de ‘Desejo e Reparação’ é a cena da praia, com aquele plano-seqüência que parece mero virtuosismo estético, mas encerra um dos temas de Wright. A guerra é uma rexperiência limite, não só para seus personagens, mas para a sociedade de classes em que eles vivem. Saymon disse que o livro exigiria, no cinema, a dupla Losey/Pinter. Curioso – pensei em Losey o tempo todo e devo dizer que Pinter está bem substituído por Christopher Hampton (o dramaturgo que escreveu os roteiros de ‘Ligações Perigosas’ e ‘Carrington’). A chave do que Wright quer dizer é, para mim, a cena em que Robbie (James McAvoy), em plena loucura da guerra, é esmagado – do jeito que o diretor filma – diante daquela telona que projeta as juras de amor de Michèle Morgan e Jean Gabin em ‘Cais das Sombras’, de Marcel Carné, de 1938. O cinema – a arte – é maior que a vida? Isso leva ao desfecho, com a entrada em cena de Vanessa Redgrave, para cinco minutos de antologia. Van Gogh, na cara a Theo, dizia que pintava para consolar. Joe Wright transforma o consolo em reparação. O desejo no título não é mero sensacionalismo. Há o desejo como motor da tragédia, mas o desejo é DE reparação. Achei lindo. E, ah, sim Keira Knightley. Ela já havia feito com o diretor ‘Orgulho e Preconceito’, do qual gostei bastante (acho a melhor adaptação de Jane Austen, incluindo a de Ang Lee, ‘Razão e Sensibilidade’). Fiquei com preguiça de procurar na rede. Ela e o diretor são casados? Ele a ama, com certeza, senão como mulher, como atriz, e a leva a limites. Vi outro dia numa revista as fotos da filmagem do comercial que Joe Wright fez com ela para a Chanel. O que é a Keira? Pelamor de Deus! O comercial já pode ser visto no youtube? Procurem que deve valer a pena (embora eu só tenha visto fotos de rodagem).