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Cultura » Mais cólera, agora, do que amor

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Luiz Carlos Merten

30 Dezembro 2007 | 10h46

Havia gostado muito de ‘Sombras de Goya’ quando vi o filme de Milos Forman no Festival do Rio. Foi uma noite de emoções muito fortes. Vi ‘O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford’, corri para o ‘Goya’ (ou foi o contrário?) e saí do cinema para assistir à meia-noite, no Odeon BR, a ‘Lust, Caution’, de Ang Lee, que não me impressionou tanto porque estava impactado pelos dois filmes anteriores, que, de alguma forma, se completaram na minha cabeça. Ang Lee, falando da ambivalência radical de homens e mulheres – dos seres humanos -, iluminou o que havia sido, para mim,, o tema de Forman e também de Andrew Dominik em seu western, mas a força dos outros dois filmes era muito vívida na minha consciência e eu não conseguia ‘entrar’ em ‘Lust, Caution’. Na revisão, ‘Sombras de Goya’ ficou ainda melhor. Muita gente reclama da transformação do personagem de Javier Bardem, o padre Lorenzo, mas é só depois de assistir à segunda parte que fica clara a sutileza na construção do personagem. São tantos os sinais de que aquilo vai ocorrer. E o filme é suntuoso como espetáculo audiovisual. Enche os olhos e os ouvidos. Goya pode dar nome ao filme, mas seus ‘fantasmas’ (‘Ghosts’, no original) são mais importantes e Lorenzo e Inès, Javier Bardem e Natalie Portman, é que dão a ‘Sombras de Goya’ sua complexidade e riqueza. O filme me pareceu tão-tão bom que ontem, finalmente, consegui sentir cólera, mais do que amor, pela adaptação que Mike Newell fez, com roteiro de Ronald Harwood, do romance de Gabriel García Márquez. A história de ‘O Amor nos Tempos do Cólera’ é maravilhosa e, até certo ponto, maravilhosamente contada (no roteiro). O problema nem é o inglês, em substituição à riqueza do idioma espanhol de García Márquez. ‘Goya’ é falado em inglês e numa profusão de sotaques, mas isto não limita em nada a força nem o impacto do filme. Javier Bardem é espetacular. Seu Padre Lorenzo é aquilo que Fernanda Montenegro chamou de ‘touro erótico de Picasso’. Ontem, depois de rever Javier Bardem em ‘Goya’, a impressão que tive foi a de que o touro havia sido castrado pela flêuma do Mike Newell. Estou sem coragem para rever ‘O Amor nos Tempos do Cólera’, mas preciso fazer o sacrifício.

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