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Luiz Carlos Merten

27 Setembro 2006 | 12h06

Termino este texto, almoço correndo e vou à tenda do festival, na praia de Copacabana, para a entrevista com Alejandro González-Iñárritu, o diretor de Babel. Na seqüência, no Meridien, falo com o Carlos Bolado, diretor de Só Deus Sabe. Babel está no Panorama; Só Deus Sabe, na Première Latina. Embora em mostras diferentes, representam a conexão latina, muito forte no Festival do Rio. Tenho visto coisas interessantes e provocativas na Première Latina. Ontem vi Carnaval de Sodoma, do Arturo Ripstein, numa sessão à noite no Espaço Unibanco. Tive a sensação de que a platéia não estava gostando muito. O mexicano Ripstein aderiu à tecnologia digital, e não foi de agora. Seus movimentos de câmera, a maneira como usa a cor, como usa o digital a seu favor, são coisas de mestre. Em 1972, ele dirigiu um de seuas primeiros grandes filmes, O Castelo da Pureza. Ripstein já estava na estrada há dez anos, mas o filme causou sensação. Um pai isola a família, corta todos os vínculos com o mundo externo para proteger a mulher e os filhos da degradação que identifica fora de casa. Ripstein filmou agora seu castelo da impureza. O bordel de Carnaval de Sodoma é um antro de perdição, mas a igreja e as beatas que protestam diante da porta são piores ainda. O mundo é hipócrita, o bordel é a pátria, o México e, se você acompanha a política mexicana, vai perceber que é isso mesmo. Ripstein não exagera. Há algo de Fellini nos personagens bizarros que ele põe no bordel. Há algo de insano no casal de chineses, na submissão da mulher ao marido e na revelação final sobre ele. Carnaval de Sodoma não é filme para digerir a uma primeira visão. Estimula o pensamento e o Cinema Que Pensa, como diz Eryk, filho de Glauber Rocha, é o que necessitamos hoje.

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