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Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2007 | 09h18

Mal terminei de postar aquele texto enorme sobre Chaplin e já estou de volta a ele. Agora, é para lembrar a riqueza de sua ‘mise-en-scène’. Chaplin não era só um gênio encenando o humor, o gag – que, na verdade, é a gag, no feminino -, mas também o drama. Uma das cenas exemplares da possibilidades narrativas (e dramáticas) do cinema é o fecho de ‘Luzes da Cidade’. Já se passaram mais de 70 anos – 76, mais exatamente, numa arte que tem 112 anos -, mas aquilo ali ainda é uma aula de cinema. No início do filme, um encadeamento sonoro fez com que a ceguinha, ouvindo determinado som, tenha feito uma associação e chegado à conclusão de que Carlitos era rico. No fim, ocorre o movimento contrário e ela não só descobre que ele é pobre, como manifesta no olhar toda a sua decepção diante do seu benfeitor. Aquilo é tudo – cruel, triste, emotivo. A gente faz a cena olhando do ângulo de um ou de outro personagem. E isso continua vivo, atual. Não são muitos os diretores ‘modernos’ que poderiam criar uma cena como aquela. Mas deve ser a isso que alguns de vocês se referem quando dizem que toda época tem seu talento. Eu quero mais é ver como os Farrelly filmariam uma cena daquelas. Provavelmente, até gostaria, porque me divirto com os caras, mas duvido que fosse achá-los maiores do que Chaplin. Ou Wilder, que vocês amam tanto (e defendem com unhas e dentes em seus comentários).