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Luiz Carlos Merten

07 Março 2007 | 19h00

Falei aqui outro dia da ponte entre Visconti e John Cassavetes e agora não me lembro quem mordeu a isca, imediatamente postando um comentário sobre o gosto do detalhe (e da beleza) de Visconti como algo distante da urgência do cinema de JC. É verdade, mas é justamente isso que faz o atalho de Cassavetes a Visconti uma via fascinante de ser percorrida. Gosto demais dos filmes de John Cassavetes, os grandes pelo menos, e mais um vem se somar aos dois que já estão em cartaz. Já temos Faces e Uma Mulher sob Influência e, agora, na sexta, depois de amanhã, soma-se o primeiro que ele dirigiu, Sombras (Shadows). Minha ponte é que todos tratam de família – tanto faz que seja a de sangue como a comunitária, como a de Shadows, no qual uma garota negra se envolve com caucasiano e a relação provoca manifestações de ambos os lados, a favor e contra. Cassavetes desenvolve aqui as técnicas de improvisação que o fizeram famoso. É muito forte, mas acho mais importante destacar que ele compartilha com Visconti a idéia de que a família é um círculo de amor e alienação. A mãe de Uma Mulher sob Influência é tão excessiva quanto a Rosario Parondi de Rocco e Seus Irmãos e o afeto de pais e filhos, maridos e esposas é sempre asfixiante. Gosto dessa coisa excessiva, tipicamente viscontiana, e nunca vou esquecer quando fui rever Rocco e Seus Irmãos com um grupo do jornal. É o filme da minha vida, não me canso de dizer. Encho o saco de todo o mundo, recitando diálogos inteiros de Rocco. Foram todos os meus colegas, acho que mais interessados na minha reação do que no filme, propriamente dito. Naquela cena culminante – Simone matou Nádia e volta para casa, confessa o crime, Rocco chora, a mãe esbofeteia Ciro que quer que Simone se entregue e então Katina Paxinou ergue as mãos para o céu, bradando contra Deus, tudo em meio a muita gritaria –, eu tive um troço e desatei a chorar, enquanto meu vizinho de poltrona não agüentou e rebentou de rir, até hoje não sei foi de nervoso, sendo seguido pela platéia toda, assustada com aquele barroquismo delirante. JC tem um pouco desse excesso – veja-se o cara tentando reanimar a mulher no banheiro, em Faces – e também dirige sua câmera basicamente para o corpo humano, como Visconti fazia no começo de sua carreira, na fase que definia como ‘antropomórfica’. Uma diferença é o olho para a beleza. Visconti fazia filmes visualmente deslumbrantes, aquilo que comumente definimos como pictóricos. Jamais pensaria em JC como um diretor para servir de ferramenta na discussão sobre cinema e pintura. Eu, não; mas outros, sim. Thierry Jousse, autor de um livro muito importante sobre Cassavetes que foi editado no Brasil, usa um conceito de Deleuze para rotular JC como um dos diretores mais pictóricos do cinema. O conceito é o de que a pintura seria, ou é, a arte mais apta a dar, sem mediação, a sensação e seu ritmo. O cinema de Cassavetes, voltado para o corpo, tende a eliminar a profundidade de campo em função do movimento do corpo do ator e isso, segundo o crítico, cria uma aproximação com a pintura expressionista e abstrata de Jackson Pollock. É matéria para especulação erudita e um golpe para quem tende a acreditar que a pintura, no cinema, liga-se à cor, à luz, à composição, a todas essas coisas que construiriam uma imagem ‘bela’. A beleza dos filmes de Cassavetes não está na imagem, mas no pathos. Vejam seus dois filmes, hoje e amanhã, à espera do terceiro, na sexta.