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Luiz Carlos Merten

17 Dezembro 2008 | 14h03

Bruno Piscinato e Mário Kawai já fizeram referência ao ciclo sobre o primeiro Bertolucci – ‘A Estratégia do Sonho’ – que começa hoje no CCBB. Prometo voltar logo ao tema, mas não resisto quando o assunto é Anthony Mann. Mauro Brider me diz que assistiu a todos os filmes da dupla Mann/James Stewart, menos ‘Região do Ódio’, de cujo título original não se lembra. Este ainda vai virar um blog só de westerns. Não resisto a falar sobre o gênero que fez meu imaginário na infância e adolecência. ‘Região’ do Ódio, de 1954, é o quarto dos cinco filmes da dobradinha Mann/Stewart. Seu título original é ‘The Far Country’, o roteirista é Borden Chase (como em ‘E o Sangue Semeou a Terra’) e, embora tenha atrativos, ouso dizer que talvez seja o mais fraco – ou o menos ‘maior’ – dos bangue-bangues da dupla. Jimmy Stewart, como todo herói manniano, faz o homem perseguido por seu passado, que foge para a região mais distante possível – o Alasca. Ele é perseguido pela lei como assassino, mas matou porque bandoleiros roubaram seu gado, que conseguiu recuperar (em parte). O gado é confiscado por um juiz de arma na mão – como o Paul Newman do belo ‘Roy Bean, o Homem da Lei’, de John Huston. Este juiz, interpretado por John McIntire, é desafiado por Stewart e seu parceiro Walter Brennan, ambos juram vingança, um contra o outro, e para complicar a trama existem duas mulheres – uma ambivalente, Ruth Roman, e a outra boazinha até demais para um western de Mann, Corinne Calvert. O filme tem ação, um cenário deslumbrante, mas falta o principal – o antagonita de Stewart, um homem com um problema no passado, como ele, e que nos filmes de Mann representa sempre o alter-ego do protagonista, aquilo que ele poderia ser, se não mudasse, e que em geral o leva ao confronto para extirpar seu lado ‘negro’. Esse tipo de psicanálise, que parece primitivo, fazia parte da essência do gênero e também estava presente nos westerns de outra grande dupla, o diretor Budd Boetticher e o astro Randolph Scott. Desprovido desse antagonismo, o mocinho parece menos interessante, ou menos complexo, mas é curioso que Mann desta vez tenha trazido o tiroteio final para os limites da cidade, e não o localize no teatro da natureza selvagem, como as montanhas de ‘O Preço de Um Homem’. Não me lembro mais quem completava o elenco, mas tenho certeza de que havia um grande coadjuvante em cena – Jack Elam, aquele ator de olho torto que Sergio Leone colocou no mais deslumbrante, e operístico, de seus spaghetti westerns, ‘Era Uma vez no Oeste’, que revi outro dia na TV paga (e aquela abertura é antológica). Estou saindo para ver ‘Crepúsculo’. Na volta, encaro o Bertolucci da primeira fase, nos anos 60 e 70.