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Luiz Carlos Merten

11 Abril 2009 | 14h13

PORTO ALEGRE – A data passou em branco na última terça-feira. Não me lembrei nem vocês. Francis Ford Coppola completou 70 anos. O primeiro Coppola a gente não esquece. O meu foi ‘Agora Você É Um Homem’, o primeiro filme do diretor a estrear no Brasil. Tenho sempre a tentação de dizer que o filme se inscreve na vertente de ‘A Primeira Noite de Um Homem’ (The Graduate), de Mike Nichols, mas se alguém copiou alguém foi Nichols, porque o filme dele é de 1968 e o de Coppola data de dois anos antes. Peter Kastner é o adolescente Bernard Chanticler, cuja vida pendular oscila entre a mãe possessiva (a lendária Geraldine Page) e a sexy Barbara Darling (Elisabeth Hartman). Não sei o que elogiar primeiro, se a trilha do Lovin’ Spoonful ou a interpretação de Elisabeth. A trilha é um primor, tão importante na estruturação do relato quando a de Simon e Garfunkel no cult de Mike Nichols. E Barbara Darling… Elisabeth Hartman havia feito ‘Só o Coração Vê’, de Guy Green, como ceguinha que se envolve com Sidney Poitier e a mãe dela é Shelley Winters, que ganhou o Oscar pelo papel de ‘vaca’ racista, que prefere ver a filha morta a vê-la apoiada por um negro. Poitier é tão bom neste filme, melhor do que em ‘Uma Voz nas Sombras’, de Ralph Nelson, que lhe deu o Oscar. Elisabeth também integrou o elenco de ‘O Grupo’, de Sidney Lumet, adaptado de Mary McCarthy. Era tão talentosa, feinha mas tinha um algo mais e aí Coppola revelou que podia ser sexy, só que Elisabeth Hartman entrou sei lá em que depressão sem fim e se matou. Seu suicídio sempre me chocou, não sei por quê. Afinal, os existencialistas fizeram uma outra leitura desse gesto radical. Não o aprovo, claro, mas posso tentar entender e o dela me entristece só de pensar. Coppola fez depois o musical ‘O Caminho do Arco-Íris’, com Fred Astaire, e o road-movie ‘Caminhos Mal Traçados’ antes de ‘O Poderoso Chefão’, o primeiro da série, com sua genial lição de cinema narrativo a serviço de uma reflexão sobre a luta pelo poder numa democracia ética. Vieram os ‘Chefões’ 2 e 3, ‘Apocalypse Now’ – pelo qual, tenho de admitir, nunca fui muito empolgado, embora tenha de reconhecer que possui momentos de gênio -, ‘O Fundo do Coração’, ‘O Selvagem da Motocicleta’, ‘Peggy Sue – Seu Passado a Espera’. Não gostei muito de ‘Jack’ e, pelo visto, Coppola também não, porque minha leitura de ‘Youth without Youth’ é de que ele fez este filme sobre o tempo (e a linguagem) contra ‘Jack’. ‘Juventude sem Juventude’ nunca estreou no Brasil, mas até eu sei que circula livremente na banda larga, para quem quiser ver. Coppola, septuagenário, deve estrear em junho, nos EUA, o novo filme, ‘Tetro’, sobre uma família italiana, com locações em Buenos Aires. Tenho a maior expectativa (esperança?) de que ‘Tetro’ seja selecionado para Cannes. Será? Coppola foi (é?) grande, um farol do cinema de Hollywood nos anos 60 e 70. Toda a reinvenção de Hollywood passa por ele – e por Spielberg, Lucas e Scorsese -, colegas de uma geração que foi extraordinária e fez grandes coisas. Amo os três ‘Chefões’ e gosto até mais do último, que, como os anteriores, tem sua grande cena final construída numa montagem paralela, que aqui é no teatro, na Sicília, naquela montagem de ‘Cavalleria Rustichana’, na Ópera de Palermo. Gosto, no filme, até do que todo mundo odeia, a participação de Sofia Coppola, como a filha sacrificada de Michael Corleone. O papel seria representado por Winona Ryder, que teve algum problema e Coppola, às vésperas do início da filmagem, chamou a própria filha, que vinha tendo pequenas aparições em seus filmes. A crítica caiu matando, querendo atingir o pai por meio da filha, mas eu sempre achei que a filha do diretor, como filha condenada à morte do chefão, era uma coisa muito densa (e forte). Disse isso a Sofia, quando a entrevistei por telefone, e ela achou que era muita delicadeza minha, mas reconheceu que era péssima como atriz e nunca se arrependeu de passar da frente para trás das câmeras. Alguns de vocês devem conhecer o documentário ‘O Apocalipse de Um Cineasta’, com base em filmes domésticos feitos pela mulher de Coppola, Eleanor, sobre o que foi a rodagem de ‘Apocalypse Now’ nas Filipinas. O projeto mais megalômano, insano de Coppola – um dia conto para vocês, se tiverem interesse, o que podem ler no admirável livro de Elaine Showalter, como é mesmo que se chama? ‘Anarquia Sexual’? É o relato mais terrível sobre como como um grande artista ‘ético’ perde seus limites para realizar uma obra, como se ela e só ela, fosse maior que sua vida. Divago sobre Coppola. Tantos grandes momentos de experimentação (‘Tetro’ foi feito em suporte digital). Acho muito significativa uma frase dele – ‘Gosto de comida e vinho, mas amo o cinema. Ele é mágico e eterno.’ Nunca sei se Coppola fala do cinema, em geral, ou se do dele, em particular. Pois seus melhores filmes são, sim, mágicos e eternos.

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