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Luiz Carlos Merten

12 Novembro 2007 | 19h24

É curioso, mas há cerca de duas semanas, quando entrevistei os atores da minissérie ‘Roma’ para o ‘Caderno 2’, especialmente a Lyndsey…, que faz Cleópatra, me veio muito forte a lembrança de ‘Faraó’, de Jerzy Kawalerowicz, um filme polonês que sempre me impressionou muito por sua construção espacial. Como Glauber Rocha, na estrutura bipolar de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ e ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ – para não falar em ‘Terra em Transe’, em que o personagem de Jardel Filho, o poeta Paulo Martins, oscila entre Paulo Autran e José Lewgoy –, Kawalerowicz mostrava o seu faraó dividido entre o templo e o palácio, com o deserto no meio. Era assim que Ramsés XIII lutava contra o poder dos sacerdotes, a quem responsabilizava pela decadência do Egito, e o diretor estava falando, metaforicamente, era da ortodoxia comunista em seu país. Essa construção já estava no filme mais famoso do diretor, ‘Madre Joana dos Anjos’, que tanta sensação fez no começo dos anos 60, ao reconstituir o caso das monjas possuídas de Loudun, na França. Anos mais tarde, no começo dos 70, Ken Russell baseou-se no mesmo episódio para fazer ‘Os Demônios’, com Vanessa Redgrave e Oliver Reed, e o filme dele foi proibido pela censura do regime militar no Brasil. O de Kawalerowicz, em sóbrio preto-e-branco, é interpretado por Lucyna Winnicka, uma atriz excepcional. ‘Madre Joana’ desenvolve-se entre a taberna e o convento, com uma terra desolada no meio. O deserto é o inferno, o convento é o paraíso e a taberna é o purgatório, ou será o contrário – a taberna é o paraíso, o deserto é o purgatório e o convento é o inferno? Há 40 e tantos anos – ‘Madre Joana’ é de 1961, tendo recebido o prêmio especial do júri de Cannes no ano em que ‘Viridiana’, de Luís Buñuel, e ‘Une Aussi Longue Absence’, de Henri Colpi, dividiram a Palma de Ouro – , os críticos aplicaram o rótulo de metafísico ao filme de Kawalerowicz, pela maneira como ele discutia sexo, poder e repressão religiosa, sempre interessado em falar sobre a Polônia. A novidade que Antônio Gonçalves filho acaba de me contar é que uma nova distribuidora de DVDs do Maranhão, a Lume – espero que tenha melhor sorte do que a Aurora, do Recife –, acaba de lançar ‘Madre Joana’ e o filme já está nas lojas. A Lume já lançou ‘Felizes Juntos’/Happy Together, o melhor Wong Kar-wai – e olhem que eu amo ‘Amor à Flor da Pele’, mas aquele plano do matadouro em Buenos Aires é uma das coisas mais geniais que já vi, ainda mais belo, no seu horror, do que a mítica Maggie Cheung avançando naquele corredor, ao som de Nat King Cole. A Lume promete ambém ‘Exótica’, de Atom Egoyam; ‘Underground’, de Emir Kusturica; e ‘Filhos de Hiroshima’, de Kaneto Shindo. Sou daqueles que fazem campanha por esses lançamentos alternativos, mesmo sabendo – é o que me diz o levantamento da Agência Estado sobre os preferidos do público nas locadoras, que recebo todas as semanas – que o pessoal retira só o mainstream, os lançamentos de Hollywood. Kawalerowicz pertence à geração de Wajda, Polanski e Skolimowski, numa época em que o cinema polonês, por volta de 1960, era considerado um dos melhores e mais politizados do mundo. Faz tempo que não vejo ‘Madre Joana Joana’. Lembro que assisti ao filme pela primeira vez, em Porto Alegre, num histórico Festival do Cinema Polonês que se realizou no Salão de Atos da UFRGS, na seqüência de outros dois festivais – um dedicado ao cinema soviético e outro ao expressionismo – que atualizaram os cinéfilos da minha geração com o passado e o presente (na época) do melhor cinema que se fazia no mundo. Lá vou eu atrás de ‘Madre Joana’. Gostava tanto do filme de Kawalerowicz que nunca consegui deglutir muito bem ‘Os Demônios’. O filme de Ken Russell saiu em DVD? Não creio, mas alguém me atualize, por favor.

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