Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Madre Joana’

Cultura

Luiz Carlos Merten

08 Março 2011 | 12h08

RIO – Nos comentários sobre o post ‘As Mais Belas Histórias de Amor’, o assunto deixou de ser romance para virar terror. ‘A Profecia’, ‘O Exorcista’… José Guedes estranhou que ninguém tenha citado ‘Madre Joana dos Anjos’, o clássico do polonês Jerzy Kawalerowicz, com Lucyna Winnicka. Em matéria de filme de demo, nenhum impressiona mais o Zé. Espero ter redigido certo o nome de Lucyna. Celdani não se lembra direito do filme. Pede ao Zé Guedes que o lembre. Eu lembro. ‘Madre Joana’ baseia-se no episódio das freiras endemoniadas de Loudun, que inspirou um livro de Aldous Huxley e um filme de Ken Russell – ‘Os Demônios’, com Oliver Reed e Vanessa Redgrave. O filme de Russell foi proibido pela censura do regime militar. O de Kawalerowicz teve lançamento comercial, numa época em que o cinema polonês chegava ao Brasil por meio da empresa Franco-Brasileira. Sempre achei que Kawalerowicz influenciou Glauber. Pode até ser que a inspiração tenha vindo simultaneamente para ambos, mas ‘Madre Joana’ foi premiado em Cannes em 1961, ‘Deus e o Diabo’ foi à Croisette três anos mais tarde. Glauber, como Kawalerowicz, gostava de dicotomias, criava antinomias. Deus e o Diabo, o Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro. No filme de Kawalerowicz, existem dois espaços, o convento e a taverna, separados por uma terra de ninguém (um deserto?). O padre exorcista transita entre ambos. A taverna é o espaço do pecado, mas as freiras, possessas, transformam a casa de Deus num bordel. Íncubos e súcubos (des)governam o mundo. William Friedkin terá visto o filme de Kawalerowicz? Entrevistei-o duas vezes e nunca me ocorreu de perguntar, que pena. ‘Madre Joana’ foi filmado em preto e branco. Como ‘Gigolô Americano’, mas num sentido diferente, foi feito com grande estilização cênica. O autor voltou ao espaço bipolar em seu último grande filme, ‘Faraó’, em que transformou a discussão religiosa, sobre o monoteísmo, em ideologia, para encarar o tema tabu – no mundo comunista – do stalinismo. Em ‘Faraó’, existem o palácio e o templo, como representações de poderes em disputa. Kawalerowicz pertence a uma importante geração do cinema polonês. É curioso, mas lembrei-me dele ao encontrar Jerzy Skolimowski, homenageado no Festival do Rio, no ano passado. Skolimowski comeu o pão que o Diabo amassou, mas ressurgiu com ‘Essential Killing’, premiado em Veneza, no ano passado. Kawalerowicz, segundo ele, não teve forças para resistir e acabou-se na TV. Mas ele foi importante. Fez filmes provocadores. ‘Madre Joana’ era ousado, gráfico. Encontra-se dsisponível em DVD, lançamento da Lume (senão me engano). Ou seja, Celdani, podes (re)ver o filme, o que é melhor do que ficar lendo essas linhas.